terça-feira, 8 de janeiro de 2019

CPTM e Supervia: uma breve comparação

Fazer uma análise ou uma crítica a um sistema de transporte sempre pode ser um divisor de águas, afinal de contas para fazer isso é necessário avaliar muitos quesitos que vão além de analisar linhas ou frota, mas sim dados geográficos e planejamento urbano. Mas acima de tudo, para criticar ou analisar é necessário conhecer de perto cada caso. 
Tendo isso em vista, nós do Metrópole SP visitamos o sistema de transporte do Rio de Janeiro em novembro passado. Vamos fazer uma comparação focada na rede de transportes metropolitanos sobre trilhos, entre a CPTM, operadora estatal de São Paulo, e a Supervia, operadora privada do Rio de Janeiro. 
Essa comparação não tem como objetivo denegrir a imagem de nenhuma das empresas, mas entender como cada uma opera e atende aos seus milhares de passageiros. Além de comparar o único exemplo de concessão do modal ferroviário de transporte metropolitano com a CPTM. 

Estações
Começando por onde todos os passageiros sempre passam, ou deveriam passar, pelas estações. A CPTM, atualmente possui 94 estações no sistema, boa parte construída pela RFFSA/CBTU ou pela Fepasa, nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Por conta disso, há muitas estações que não possuem itens de acessibilidade ou mais conforto aos usuários, como é o caso de Aracaré, estação construída pela RFFSA nos anos 1960 para a linha Variante Poá, atual linha 12 safira. 
Outros casos como as estações das linhas 7 rubi e 10 turquesa da companhia, antigas linhas da Rede Ferroviária. São estações sem o mínimo de conforto, acessibilidade ou modernidade. Embora estejam relativamente conservadas, ainda fazem parte do calcanhar de Aquiles da CPTM. 
Contudo, há muitas estações que foram construídas, reconstruídas ou reformadas ao longo dos anos de administração da CPTM.
Estação de Itaquaquecetuba ainda no padrão CBTU.
Autor: Victor Santos.
Embora ainda tenha estações centenárias em operação, há estações modernas em operação como Engenheiro Goulart, reconstruída e entregue em 2017, Aeroporto-Guarulhos, entregue em 2018, e as estações da linha 9 Esmeralda, com exceção das estações construídas pela Fepasa, e que foram reformadas pela CPTM. 
Trem série 9500 estacionado na recém reconstruída estação de Engenheiro Goulart. Autor: Victor Santos
Na Supervia, o que vimos foi um processo de modernização de algumas das 102 estações operantes no sistema. Como o Rio de Janeiro foi palco de muitos eventos nos últimos anos, entre eles a Copa FIFA 2014 e as Olimpíadas de 2016, as estações que ficam no caminho para os locais dos eventos receberam uma modernização para atender a demanda com mais conforto. Diga-se de passagem, algumas das estações que foram modernizadas e que visitamos estavam melhores que algumas estações que a CPTM modernizou, como a estação Engenho de Dentro, modernizada duas vezes, uma vez em 2007 para os Jogos Paraolímpicos, e em 2015 para as olimpíadas.
Estação Olímpica de Engenho de Dentro.
Autor: Victor Santos
Mas, como nem tudo são flores, também visitamos estações que fazem Aracaré e Engenheiro Manoel Feio aqui em São Paulo parecerem estações do século XXI. A estação de Santa Cruz, localizada na região Oeste da capital carioca, o  acesso “assusta” por ser escondido por tantos camelôs, acesso este feito através de uma íngreme escada fixa e sem muita segurança aos passageiros. Para os cadeirantes, o acesso fica parcialmente fechado, sendo aberto somente quando um funcionário é chamado para abrir um portão que dá acesso mais direto a plataforma, mas somente a uma, caso o cadeirante precise ir para outra plataforma, talvez seja um tormento para ele. O mezanino, localizado um nível acima das plataformas, possui a bilheteria e as roletas para o pagamento.
Estação de Santa Cruz, ponta do ramal de Santa Cruz.
Autor: Victor Santos
A estação de Campo Grande, outra estação da mesma linha, também deixa qualquer usuário da CPTM abismado com o estado de conservação bem ruim da estação. Elevador? Escada rolante? Rota tátil? Talvez possa parecer coisas simples, mas são esses itens que podem fazer a diferença para muitos usuários, sobretudo para idosos, gestantes ou pessoas com mobilidade reduzida. 
Estação de São Francisco Xavier, note a ausência de cobertura em boa parte da plataforma.
Autor: Gustavo Bonfate.
Outra estação que nos deixou um tanto perplexo, seja pelo tamanho ou pela péssima conservação, é a estação Central do Brasil, a principal e marco zero da empresa. Dela, parte todas as principais linhas e ramais da Supervia, ou seja, o movimento é intenso como a estação Brás da CPTM. Aliás ambas já foram interligadas pelos trens de longo percurso no passado, pela Estrada de Ferro Central do Brasil no passado. 
A estação Central do Brasil é imensa, duas vezes o tamanho da estação Brás, possui 13 plataformas e uma extensa área antes do embarque, onde esta o saguão da estação que possui quiosques e lojas. 
Embora possua uma imensa importância histórica e atual, as plataformas estão péssimas para uma estação de grande porte e alto movimento. Rachaduras, falta de cobertura na área de embarque, desnível e vão entre o trem e a plataforma que faz qualquer Paulista sentir saudades da estação Brás, reformada no início dos anos 2000, mas mantendo dois prédios originais tombados pelo patrimônio histórico.
Trem série 3000 estacionado na estação Central do Brasil.
Estação não está tão conservada quanto esperávamos.
Autor: Victor Santos.
Fora a questão da limpeza, que no dia da visita, um dia comum, estava muito ruim. Na verdade, de todas as estações visitadas, a maioria possuía problemas de limpeza. 
Na CPTM, embora haja muitos casos de falta de limpeza ou conservação da estação, quase sempre é possível encontrar uma estação limpa, conservada ou assegurada por funcionários, coisa que quase sempre não encontramos nos dias em que utilizamos a Supervia. Quando muito tinha um segurança nas plataformas. 
Outra situação que não encontramos com muita frequência na ferrovia Paulista, mas que existem e infelizmente vem se agravando, é a invasão de pessoas as linhas. Na CPTM existe a invasão de pessoas que não pagam a tarifa e embarcam pulando muros ou catracas. Embora seja uma prática infelizmente comum na CPTM, não chega a ser algo tão assustador quanto os casos que vimos na ferrovia carioca.
Havia estações no Ramal Santa Cruz que simplesmente não havia muro de separação da via com a rua, ou seja, enquanto havia duas pessoas pagando a tarifa de forma correta, cerca de dez ou mais “cidadãos” invadiam a via pelo resto de muro, que aparentemente foi derrubado,  pulando a plataforma. Além de ser algo que foge de um ato de um cidadão honesto, e o perigo de um trem de se aproximar e atropelar todos que estavam na via? Realmente algo que assusta os desavisados. 

Nesse quesito estação, a CPTM sai em vantagem por ter 52 das 94 estações acessíveis, entre as que possuem elevadores e sem contar as que possuem ao menos rampas de acesso, em sua maioria bem conservada, além de ter aberto 12 novas estações desde que assumiu integralmente o sistema em 1996, sem considerar as estações reconstruídas.
No caso da Supervia, das 102 estações operantes, bem poucas possuem itens de acessibilidade, quase todas encontram-se em um péssimo estado de conservação, e quase não abriu novas estações, apenas reconstruindo algumas e fechando outras. Não obtivemos dados sobre as novas estações, embora recentemente a empresa reabriu estações antes desativados.

Frota
Até o dia do fechamento dessa matéria, a CPTM havia em sua frota 204 composições operando. Desse total, apenas duas séries não possuem ar condicionado e são as séries mais antigas do sistema. São elas, a série 1700, fabricada em 1987, e a série 5400, antiga frota 5000 fabricada em 1978 e reformada em 2014.
Ao longo dos quase 27 anos que serão completados em Maio, a CPTM adquiriu 219 novas composições desde 1998, quando comprou a primeira nova série da sua frota: A série 2100, frota usada da espanhola Renfe. Desde então a estatal vem a muito custo renovar sua frota, que era tão sucateada ao assumir a malha da extinta RFFSA e Fepasa, que gerou a péssima fama dos trens que acompanharia a CPTM, mesmo nos dias atuais.
Trem série 4400: unidades restantes foram desativadas recentemente.
Autor: Victor Santos.
Em 20 anos, a CPTM reformou as séries mais antigas como as séries 1100, 1400, 1700, 4400, entre outras. Porém, nos últimos oito anos, boa parte das frotas herdadas de operadoras antigas foram retirados de circulação, dando o lugar para as frotas mais novas e modernas como as séries 2000, 7000, 8000, 9000, entre outras. Somente na última grande compra da empresa, foram 65 novos trens que foram divididos em duas séries: A série 8500, sendo 35 unidades fabricadas pela CAF, e a série 9500, 30 unidades restantes fabricadas pela Hyundai-Rotem. 
Comprados em 2016, agora quase três anos depois, quase todos os novos trens foram entregues, faltando apenas oito trens. 
Há ainda a série 2500, comprados para mais nova linha da companhia, a Linha 13 Jade, inaugurada em abril de 2018. Esperasse que as oito unidades, que serão fabricadas pela chinesa CRRC, estejam operando até o final de 2019, adicionando mais novos trens a empresa.
Trem série 9500, a mais nova serie da CPTM.
Autor: Yuri Gabriel
A SuperVia ao longo dos quase 21 anos em operação nos trens urbanos adquiriu cerca de 100 novos trens, sendo que a empresa tambem assumiu trens herdados da Flumitrens, sucessora da RFFSA/CBTU e antecessora da Supervia. O compromisso de concessão que o governo do Estado do Rio de Janeiro fez a Supervia era de que a operadora reformula-se a frota operante, e garantisse o conforto aos passageiros. 
Contudo, somente em 2005 é que a operadora comprou novos trens para sua frota, a série 2005 fabricada pela coreana Rotem em 2006, e depois de muito tempo é que se reformou algumas séries operantes, com recursos próprios.
Trem da série 2005 estacionado em Santa Cruz.
Autor: 
Ao assumir o sistema, em 1998, haviam trens elétricos e trens movidos a diesel que operava em ramais antigos que não foram modernizados. Muitas dessas séries são mais antigas que as séries que operavam na CPTM, e até os dias atuais ainda operam na Supervia, embora não sejam mais a maioria. 
A SuperVia até tentou reformar a série 700 para receber ar condicionado e poder operar por mais algum tempo, algo que ficou caro e não ficou tão bem feito.
Com grandes eventos que iriam acontecer no Rio, o governo do Estado adquiriu novos trens para a operadora. Ou seja, mesmo sendo uma empresa privada, para modernizar sua frota, teve que recebe ajuda do Estado. Não que isso seja um problema, mas para quem defende menos Estado e mais privatização...
Trens séries 500 (à esquerda) e 3000 (à direita).
Constante grande do novo com o antigo.
Autor: Victor Santos.
Novamente, a CPTM sai em vantagem por ter atualmente a frota mais nova que a empresa carioca, ter adquirido mais trens novos ao longo dos anos e, dentro dos limites, ter uma frota relativamente conservada. Em contrapartida, a Supervia possui uma frota ainda antiga, mal conservada, mesmo na frota mais nova.

Conservação da via
Para o usuário comum, isso é menos perceptível ao primeiro olhar, mas para os mais técnicos, a conservação da via é tão importante quanto tudo. 
Por ter herdado um sistema sucateado de suas antecessoras, a CPTM teve uma difícil missão de recuperar suas vias férreas. Trocar trilhos, dormentes, sinalização, entre outros itens para garantir melhor instabilidade, segurança e conforto aos passageiros. O reflexo de anos de descaso por parte do poder público com as ferrovias paulistas são sentidas até os dias atuais, com interdições diárias da CPTM em algumas linhas para que obras de manutenção e modernização possam ser feitas.
A companhia Paulista refez trechos e faz a manutenção da via sempre.
Autor: Victor Santos.
Embora para os passageiros da companhia Paulista isso significa um atraso na viagem, pensem que para garantir melhores velocidades e mais segurança, isso é necessário. Em dias sem anomalia no sistema, dificilmente se encontra problemas nas vias que prejudiquem a segurança. Claro que há as restrições em alguns trechos, mas nada que realmente seja tão prejudicial.
Problemas com a via permanente é ainda relatado ate hoje.
Autor: Victor Santos. 
Na Supervia, se você olhar atentamente os trilhos, vai perceber a deterioração da via permanente. Dormentes rachados, trilhos com inúmeros problemas e sujeira são facilmente encontradas ao longo dos ramais da empresa. Com tantos problemas, não é incomum ouvir muito barulho vindo dos trens devido a péssima conservação dos trilhos. 
Segundo relatos de passageiros, as coisas mudaram de forma tímida nos últimos anos, sem realmente resolver problemas sérios. Os investimentos são prometidos há anos e até o momento a Supervia não conseguiu se modernizar a ponto de resolver os problemas herdados.
Em uma das viagens feitas na empresa, a irregularidade da via fez com que as vezes as pessoas pulassem em seus assentos. Isso porque mesmo com a via irregular, a velocidade era alta da composição.
Novamente, a estatal Paulista está avançada nesse quesito quando comparada com a empresa carioca. Mesmo com os problemas burocráticos para os investimentos, a CPTM conseguiu resolver muito dos problemas que herdou das companhias antigas.

Linhas e ramais
A CPTM possui atualmente sete linhas em operação, totalizando 273 quilômetros de rede. No passado, havia desde a melhor linha até a pior linha e mais evitada pelos passageiros. 
A linha 9 Esmeralda, zona Sul, era considerada a melhor linha no quesito estações e trens, onde a maioria foi construída pela CPTM no início dos anos 2000. Enquanto isso, na zona Leste, a Linha 12 era considerada a pior linha, desde os trens antigos e com péssima conservação, até as vias e estações completamente precárias. Nos dias atuais, a Linha 12 melhorou muito no quesito trens e estações, tendo apenas duas das 13 estações sem acessibilidade, além de toda a frota possuir ar condicionado. 
Em 2018, a CPTM inaugurou a Linha 13 Jade, ligando a estação Engenheiro Goulart até a estação Aeroporto-Guarulhos, com 13 quilômetros. Depois de 10 anos sem inaugurar novos trechos, o último foi a volta da linha 9 ao Grajaú em 2008, a companhia a companhia se expandiu, embora timidamente, ao longo da sua história. Está em obras também a extensão da Linha 9 para o bairro de Varginha, adicionando 4,5 quilômetros ao sistema.
Mapa da rede metropolitana de São Paulo.
Sim, uma rede conectada e integrada.
Fonte: CPTM.
tendendo a 23 municípios nas regiões Norte, Sul, Leste e Oeste da Grande São Paulo. Mesmo com os problemas diários, a CPTM tornou-se um transporte mais rápido e barato para os cidadãos de cidades mais afastadas da capital, sobretudo em comparação com os ônibus metropolitanos.
A carioca SuperVia possui atualmente oito linhas que totalizam cerca de 270 quilômetros de rede, vale lembrar que as linhas funcionam como ramais, onde o ponto de partida é a estação Central do Brasil. 
A rede se manteve ao longo dos anos a mesma desde herdou as linhas, não expandindo sua malha além da existente. Houve a reativação de trechos antes desativados como a linha de Guarapimirim, com trens movidos a diesel e carros de passageiros em péssimas condições. 
Talvez o fato da Supervia não ter se expandido seja o fato de atender Boa parte das cidades da baixada fluminense, e pelo fato de priorizar a modernização do sistema atual. Se abrimos o mapa do Rio de Janeiro, as linhas da Supervia se “espalham” pela cidade, cercada por morros. Há duas linhas em estudos para serem construídas: A extensão entre Santa Cruz e Itaguaí, trecho atualmente desativado, e a Linha Barrinha, entre Japeri e Barrinha.
Mapa da rede da Supervia.
Fonte: Supervia.
Demanda atendida
São Paulo e a região metropolitana somam juntas cerca de 21 milhões de habitantes, enquanto a Grande Rio soma cerca de 12 milhões de habitantes. A CPTM atende a 20 dos 39 municípios da RMSP, ainda atendendo a três cidades que não compõe a região metropolitana, como Jundiaí, Campo Limpo Paulista e Várzea Paulista. Segundo dados, a CPTM leva diariamente cerca de 2 milhões de passageiros. Durante os acontecimentos dos anos 1990, a companhia transportava com a mesma malha problemática cerca de 900 mil passageiros, hoje levando quase o triplo da demanda.

A SuperVia ao assumir os trens do subúrbio no Rio, transportava 145 mil passageiros por dia, pois a gestão da RFFSA era decadente. Nos dias atuais, a empresa carrega 670 mil passageiros diários, um número considerado por muitos baixo pela extensão atendida. Atende 12 dos 21 municípios da Grande Rio, e todas as cidades possuem ligações por ônibus com a capital, o que para muitos passageiros é viável dado a ineficiência no atendimento da empresa. 
Essa comparação é mais para exemplificar que a estatal Paulista aumentou sua capacidade ao longo dos anos, e mesmo que a Supervia também tenha aumentado sua capacidade, não foi o esperado pela empresa. Mesmo que cada cidade tenha suas próprias características, demandas e problemas, a comparação é válida quando levado em consideração o fato da Supervia ser o único exemplo de concessão do modal ferroviário de trens metropolitanos.

Serviços diversos
Caixas eletrônicos, quiosques de lanchonetes, sanitários, e máquinas de recarga de bilhetes, fazem parte desse quesito.
A CPTM possui ao menos uma máquina de recarga em suas estações, com exceção das paradas Amador Bueno e Santa Rita, além da bilheteria. Quiosques de lanchonetes ou conveniência estão sendo implantadas aos poucos em estações de maior movimento, sobretudo nas que possuem integração com o metrô. Também com exceção das paradas Amador Bueno e Santa Rita, todas as estações possuem sanitários disponíveis para o público. Porém, não existe máquinas de autoatendimento 24 horas em suas estações.
A SuperVia disponibiliza em algumas estações máquinas de recarga de bilhetes, não sendo em todas as estações. Quiosques de lanchonetes são bem difíceis de serem encontrados. Sanitários públicos são encontrados em quase todas as estações, mas o que surpreendeu foi que em algumas estações há caixas eletrônicos nos acessos da estações, mas encontrados nas que foram modernizadas.
Saguão da estação Central do Brasil:
Comércio abundante.
Autor: Victor Santos.
Imagem da empresa para o público
Quando alguém fala em CPTM para uma pessoa que andou em trens há dez anos ou mais, a primeira coisa que surge na mente da pessoa é “trens velhos, sem ar condicionado, assaltos, ambulantes, ou falhas”. Esse tipo de imagem que as pessoas têm da companhia surgiu no passado pelo fato da malha assumida pela estatal em 1992 ser muito precária. Tanto que a CPTM só resolveu a questão das viagens de pessoas penduradas nos trens e viagens com portas abertas em meados dos anos 2000. 
Nos dias atuais, a CPTM não sente mais tantos os efeitos da malha sucateadas que recebeu, mesmo com os problemas recorrentes. Não a toa que a demanda aumentou nos últimos 20 anos, graças a mudança de imagem que a empresa trouxe com as reformas das estações, obras de melhorias e novos trens comprados. Hoje em dia é mais fácil convencer um passageiro trocar os ônibus pela CPTM em casos de grandes distâncias ou tarifas. Embora a estatal precise melhorar mais para continuar prestando melhores serviços a população, a superlotação dos trens não é mais argumento para que os passageiros desistam de viajar nas linhas, mesmo porque o intervalo das linhas no geral não ultrapassam os 10 minutos nos horários de pico.
CPTM conseguiu resolver muito dos problemas que herdou.
Autor: Yuri Gabriel.
A SuperVia ainda tem um longo caminho a trilhar, a imagem da empresa ainda é vinculado à falhas de trens, superlotação, insegurança, trens velhos e estações péssimas no atendimento. Presenciamos relatos de altos intervalos dos trens em pleno pico, falhas recorrentes e a falta de trens reservas. 
Aliás, muitos relatos negativos são facilmente encontrados na página da empresa nas redes sociais. Recebemos alertas sobre a insegurança no sistema, evitar determinadas linhas e estações, inclusive os passageiros davam opções por outros modais, ônibus ou metrô. A SuperVia não conseguiu se distanciar dos problemas da falta de gestão da RFFSA nos anos 1990, sendo hoje seu calcanhar de Aquiles.
Por fim, basta perguntar a algum carioca que visitou a cidade de São Paulo e a CPTM, muitos dirão que a Paulista presta um atendimento muito melhor, enquanto a carioca passe a sensação de insegurança nos trens e estações.
Mesmo com investimentos, imagem da empresa ainda é vinculada a falhas r insegurança.
Autor: Victor Santos. 
Integração com outros sistemas
Em São Paulo hoje, quem sai de Mogi das Cruzes em direção a Praça da República pode utilizar os trens da CPTM até a estação Brás e depois embarcar nos trens do Metrô-SP sem pagar uma tarifa a mais, integração gratuita. O usuário também pode acessar as linhas 4 e 5 do metrô, administradas por empresas privadas, todas gerenciadas pela CCR. O conceito de rede é verdadeiramente certo, pois o passageiro não precisa pagar duas tarifas para trocar de linhas ou empresas. Seis estações permitem transferência gratuita entre os sistemas de metrô e trens da CPTM, sendo apenas duas com esquema diferencial de horário para integração. 
Há integração com os ônibus municipais de São Paulo, ou com de outras poucas cidades também ocorre, sendo necessário pagamento apenas de um complemento da tarifa cheia. Isso funciona também para os ônibus intermunicipais administrados pela EMTU-SP.
Se brinca dizendo que o passageiro pode andar em toda região metropolitana de São Paulo pagando apenas uma tarifa, ou andar a cidade de São Paulo inteira de ônibus e metrô com apenas R$6,92 (valor da tarifa mais a integração, valor antes do aumento da tarifa).
Transferência livre entre metrô e trens da CPTM.
Seis estações do sistema permitem transferência gratuita.
Autor: Via Trólebus, clique para ver fonte.
No Rio de Janeiro, chega a ser estranho para uma cidade tão visada não ter tantas integrações entre os sistemas. Por exemplo, o passageiro que quiser chegar de trem na estação Maracanã e quer seguir de metrô, deverá pagar um valor adicional para integrar. Mesmo que a estação Maracanã, onde haveria uma integração física e podendo haver a integração gratuita, não há uma integração como há em São Paulo. Chega ser estranho haver duas estações lado a lado sem uma integração ao menos física descente.
Acesso da estação Maracanã da Supervia.
Autor: Victor Santos.

Acesso da estação Maracanã do MetrôRio.
Autor: Victor Santos
Embora haja integração tarifada com ônibus intermunicipais, é pouco para o tamanho da necessidade. A situação é pior quando o passageiro quer utilizar os trens do VLT Carioca, onde não há integração nem tarifária, mesmo com uma das paradas ao lado da estação Central do Brasil.
O motivo pelo qual talvez não haja integrações mais decentes no Rio de Janeiro seja pelo fato de cada sistema ser administrado por empresas diferentes. A Supervia possui um grupo administrando ela, o Metrô Rio é outra empresa, o VLT por outra, e os ônibus municipais e intermunicipais gerenciados pelos respectivos órgãos e operados por empresas privadas. Diferente de São Paulo, onde o governo fez um contrato de concessão das linhas 4 e 5 que prevê a integração entre os sistemas, no Rio isso parece utópico, já que deveria haver quesitos nos contratos de concessão que permitam a livre transição pelos sistemas.

Comparação em dados
A CPTM possui 94 estações, sete linhas, 204 composições, atende a cerca de 2 milhões de passageiros por dia em 23 cidades. A CPTM é uma estatal de economia mista criada a partir da lei número 7.861 em 28 de maio de 1992, assumindo o sistema ferroviário existente. O intervalo médio das linhas gira entorno de 4 a 10 minutos nos picos.
A Supervia possui 102 estações, oito linhas, cerca de 200 composições que atendem a 510 mil passageiros por dia em 12 municípios. Fundada em 01 de novembro de 1998, após vencer a licitação na qual o Consórcio Bolsa 2000, hoje é administrado pela Odebrecht. O intervalo médio entre os trens fica entorno de 4 a 30 minutos, isso sem contar algumas extensões operacionais que podem chegar a uma hora ou mais de intervalo.
Tabela com dados das empresas.
Elaborado por Thiago Silva (Plamurb)
Fonte: Plamurb
Conclusão
Por mais que a CPTM seja uma estatal que está sujeita a interesses políticos e pode sofrer com falta de verbas, ao longo dos anos a companhia vêm demonstrando um avanço técnico em muitos quesitos, sobretudo com relação frota operacional. Os investimentos foram feitos e hoje o número de falhas ou interrupções diminuiu drasticamente se comparar o sistema de 20 anos atrás, aumentando a confiança dos passageiros. 
Já a Supervia, que por ter uma administração mais enxuta e livre do poder político, em tese, ainda precisa de muito mais investimentos para melhorar suas estações, trens, vias e a sua própria imagem que o público tem. A confiança aumentou, porém a empresa foi atingida pela crise que abalou o Estado e a sua própria gestão. Ouvi muitos relatos de que a Supervia hoje, é a CBTU em São Paulo no passado, onde existe a operação com trens precários e estações com aspectos de abandono.
Você que leu essa análise pode levar o texto para um lado político, mas tudo que foi visto no Rio de Janeiro pelos trilhos da Supervia é o que os cidadãos cariocas passam diariamente. Se por um lado a Supervia ganha em administração mais dinâmica e sem burocracia, perde na operação para a CPTM.
Acima, trem da CPTM na estação Luz (autor: Yuri Gabriel)
Abaixo, trem da Supervia na Central do Brasil (autor: Victor Santos).

Fontes: Plamurb, CPTM, Supervia, Wikipedia. 
Autor: Victor Santos.
Veja também a reportagem do Plamurb sobre a Supervia clicando aqui.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Sem incetivo público, não haverá melhorias

Trem série 500 da ViaMobilidade, antiga frota P do Metrô-SP:
ViaMobilidade assumiu integralmente a linha 5 Lilás em 2018, após anos de obras pelo Metrô.
Foto: Gustavo Bonfate
É perceptível que o transporte público no Brasil sofre com o desdém por parte das gestões públicas e privadas, desdém esse que nos últimos 30 anos se agravou com o sucateamento de ferrovias e sistemas de transporte por bondes ou trólebus, além do uso desenfreado do transporte sobre rodas que já se provou ineficaz para a demanda.
Nos anos 1990, durante a gestão presidencial de Fernando Collor, a política de governo adotada como "Estado Menor" faria com que o poder público deixasse de atuar em muitas áreas no país, entre elas o transporte e suas respectivas áreas. Rodovias, ferrovias, e companhias do ramo passariam a pertencer, através de concessões ou vendas, à iniciativa privada.
Com esse pensamento político, o Estado passaria a atuar apenas como um fiscalizador dos serviços que as empresas privadas prestariam à população, sempre à serviço do poder público.
Porém, quando a concessão ou venda de uma estatal não é feita para realmente melhorar a prestação de serviços e manutenção do sistema, ela se torna mais uma prova de que nem sempre a privatização é a melhor solução, vide o que ocorreu com a companhia aérea VASP quando foi desestatizada em 1990, e hoje  existem somente em fotos e lembranças da empresa. 
Vamos destrinchar um pouco esse complexo e polêmico assunto hoje, e em como o Governo ainda precisa incentivar as empresas privadas em favor de melhorias nos serviços, sobretudo no transporte.
Privatizações das ferrovias no Estado de São Paulo
Locomotiva da Fepasa puxando carros de passageiros pelo interior:
Estatal funcionou de 1971 à 1998 operando trens de passageiros e de carga.
Foto: Créditos aos autores, retirado da internet.
Embora as ferrovias já tenham sofrido um duro golpe durante os anos 1950 e 1960, os anos de 1990 pareciam ser melhores para o modal com alguns investimentos no setor na tentativa de recuperar o modal.
Até o ano de 1997, a Fepasa - Ferrovias Paulistas Sociedade Anônima era uma estatal paulista fundada em 1971 para ser responsável pela operação, manutenção e gerenciamento das ferrovias paulistas que não eram administradas pela estatal federal Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA). A Fepasa foi fundada como uma forma de centralizar as operações das ferrovias existentes, uma vez que muitas entraram em declínio após a política rodoviarista no Brasil, tais como, por exemplo, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro e a Estrada de Ferro Araraquara, estatizadas antes mesmo da fundação da Fepasa, nos anos 1960.
Companhias ferroviárias que prestaram serviços no Estado de São Paulo.
Consegue reconhecer alguma?
Foto: Autoria própria (Victor Santos).
Figura exposta em um Museu da ABPF em Sabaúna, Mogi das Cruzes - SP.
Porém, com a política de desestatização, a Fepasa em 1998 foi incorporada a RFFSA como uma forma de pagamento de dívidas que o Estado possuía com a União, passando a ser Malha Paulista da RFFSA. Tão logo a incorporação foi feita, aconteceu em novembro de 1998 o leilão para a concessão das ferrovias, no caso a antiga malha da Fepasa.
O vencedor do leilão da malha paulista foi o consórcio Ferrovia Bandeirantes S.A., a Ferroban, que além de assumir os trens de passageiros ainda existentes na época, ficou responsável pelos trens de carga no Oeste Paulista. A Ferroban ficou pouco tempo operando com este nome, passando a ser uma das companhias que se fundiram  ao Grupo Brasil Ferrovias S.A. em 2002. Posteriormente, a América Latina Logística, ou simplesmente ALL, assumiu a malha administrada pela Ferroban, e em 2015, a Rumo Logística incorporou a ALL, extinguindo-a. 
Locomotiva da ALL: empresa operava a malha da antiga Fepasa.
Foi substituída pela RUMO Logística em 2015.
Foto: Retirada da internet, créditos aos autores.
Mesmo que muitos especialistas aleguem que a privatização, tanto da Fepasa quanto da RFFSA, era necessário para melhorar os serviços e diminuir o tamanho do Estado, um fato que até hoje é alvo de discussões e divergências entre entusiastas e especialistas é a questão dos trens de passageiros, que foram extintos pouco a pouco entre os anos de 1996 e 2001. Mesmo que boa parte das ligações férreas já haviam sido extintas, a concessão apenas decretou o fim das poucas linhas que ainda eram utilizadas pelos passageiros.
Como as empresas visavam sempre os lucros e não tinham incentivos ou garantias para investir mais no transporte de passageiros, não demorou para que viagens como São Paulo à Santos, São Paulo à São José do Rio Preto, e São Paulo ao Rio de Janeiro, fossem extintas. Esta última, operada pela Rede Ferroviária, sofria com a prioridade dos trens de carga ao longo da viagem, aumentando o tempo de percurso e sofrendo ainda mais com a concorrência com os ônibus e os aviões.
O resultado está diante dos nossos olhos: rodovias saturadas, o monopólio no transporte de passageiros por empresas rodoviárias, e o abandono de estações centenárias ao longo do estado de São Paulo.
Antiga V8 da Fepasa abandonada no interior do Estado: O descaso com a ferrovia.
Foto: Créditos na foto.
Enquanto a malha da antiga Fepasa era assumida pela Ferroban, a malha ao leste do Estado foi assumida pela MRS Logística S.A., sediada em Juiz de Fora, MG. A MRS assumiu a concessão federal em 1996, ficando encarregada dos trens cargueiros da RFFSA, que seria extinta poucos anos depois, e que englobava as antigas Central do Brasil e Estrada de Ferro Santos à Jundiaí, além de muitas outras antigas ferrovias dos Estados do Rio de Janeiro e Minais Gerais. 
Locomotiva da MRS estacionada na antiga estação de Roseira - SP.
Empresa assumiu a malha da RFFSA em São Paulo.
Foto: Autoria própria (Victor Santos).
Porém, no caso de São Paulo, o governo ainda continuou atuando no transporte metropolitano de passageiros através da CPTM - Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, fundada em 1992 mas  que assumindo integralmente as linhas das antigas Fepasa e RFFSA/CBTU - Companhia Brasileira de Trens Urbanos em 1996. Sendo assim, o transporte urbano por trens em São Paulo e na região metropolitana continuou a ser estatal, enquanto na capital carioca, os trens foram repassados à iniciativa privada pouco tempo depois. 
A CBTU foi fundada em 1984 pela União, sendo uma subsidiária da então RFFSA no transporte urbano por trens nas cidades, posteriormente sendo gerenciada diretamente pela União com o fim da Rede Ferroviária, passando a ser vinculada ao Ministério das Cidades em 2003. Assim como a CPTM, a CBTU é uma estatal de economia mista que opera os trens nas regiões metropolitanas de muitas cidades brasileiras e dependendo dos repasses que a União faz a companhia para melhorias, semelhante a CPTM que é ligada ao Governo Estadual.
Logo da CBTU: empresa operou o sistema de trens em São Paulo entre 1984 e 1992.
Retirado da internet.
CMTC e SPTrans: De operadora à gerenciadora do sistema
Ônibus pertencente a CMTC: empresa foi fundada em 1947.
Foto: Douglas de Cezare. 
Na capital paulista, a política de desestatização no transporte aconteceu na metade da década de 1990, quando a CMTC - Companhia Municipal de Transportes Coletivos que, até então operava muitas linhas municipais com frota pública, foi extinta como empresa operadora. A sucessora da CMTC, a SPTrans - São Paulo Transportes Sociedade Anônima, passou a ser uma empresa para gestão, fiscalização e planejamento do transporte sobre rodas, assim contratando empresas privadas para a operação das linhas com frota própria. Na verdade, antes mesmo da extinção da CMTC em 1995, boa parte das linhas de ônibus da cidade já eram operadas por empresas contratadas pela própria CMTC.
A SPTrans ficou encarregada de fiscalizar e gerenciar as linhas, terminais de ônibus e corredores, sendo uma autarquia ligada diretamente à prefeitura de São Paulo.
Trólebus da Viação Santo Amaro: pós fundação da SPTrans.
Foto: Alessandro Alves de Costa.
O atual sistema de São Paulo, licitado em 2003 e com prazo de duração já vencida desde 2013, serviu para organizar as empresas e linhas da cidade, além de estruturar melhor o sistema e aumentar a capacidade.
Contudo, os anos 2000 provaram que o interesse privado ainda se sobressaem aos interesses públicos, quando durante a gestão municipal de Marta Suplicy, as empresas alegaram inviabilidade de operar o sistema de trólebus da cidade, operando na cidade desde 1949. 
Entre 2002 e 2003, dos quase 340 quilômetros de rede de trólebus existentes, o sistema caiu para 201 quilômetros de rede, além de perder cerca de 300 ônibus com muitos anos de serviços ainda. Se somarmos isso, mais ao fato do dinheiro público que foi desperdiçado na retirada dos fios, daria para investir na modernização do sistema, além de expandir-lo dentro do possível.
Trólebus abandonado após desativação parcial da rede de trólebus.
Foto: Thiago Silva (Jim), Plamurb
Os trólebus mais recentes da cidade, fabricados entre 2012 e 2013.
Foto: Autoria própria (Victor Santos).
Não houve qualquer estudo técnico que comprovasse que a retirada da rede aérea fosse algo benéfico a população.
Como a então prefeita se mostrou contra o trólebus por achar feio os fios da rede aérea, foi nessa mesma época que apareceu o que para muitos parecia, somente parecia mesmo, um substituto dos trólebus: os ônibus híbridos.
Os ônibus híbridos, encarroçados pela gaúcha Marcopolo com modelo Gran Viale, e chassi e sistemas Tutti Trasporti, e parceria com a Universidade Vale do Paraíba (UNIVAP) pareciam ser uma solução  mais barata que o trólebus, porém se transformou em mais um grande "desgoverno" no transporte público.
Operando por cerca de 10 anos na cidade, o projeto foi descartado pouco tempo depois da criação por diversos motivos, tais como erros no projeto, alto custo, problemas financeiros e a preferência dos empresários aos ônibus convencionais movidos à diesel.

Modelo híbrido que circulou nas áreas 5 e 7 da SPTrans.
Modelo não foi bem recebido pelas empresas pelo custo, atualmente fora de operação.
Foto: Emil Júnior.
O fato, é que nenhuma tecnologia mais eficiente ecologicamente falando vai realmente "vingar" na cidade pelo simples fato dos empresários não sentirem interesse em novas energias combustíveis, seja o trólebus, o elétrico ou o híbrido.
Seja a SPTrans, ou qualquer outra autarquia ou empresa ligada à gestão pública como a EMTU - Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, tem o papel de exigir, não somente a prestação do serviço, mas a realização do mesmo com qualidade ao passageiro. Também cabe a elas o incetivo as empresas para adquirirem novos ônibus com novas tecnologias de tração, elétricas ou híbridas, assim como foi feito nas ferrovias nos primórdios, onde as companhias se sentiam seguras para investir com os incetivos públicos.
Trólebus do Corredor ABD: Operação foi concedida à Metra em 1997
através da concessão feita pelo Estado. Antes, o corredor era operado pela própria EMTU.
Foto: Autoria própria (Victor Santos). 
Por que o incentivo público?
Locomotiva da São Paulo Railway: Primeira ferrovia de São Paulo.
Foto: Créditos aos autores. Fonte: Clique aqui
Caso você que lê essa matéria já tenha pesquisado a fundo a história dos transportes no Brasil, vai perceber que muita das companhias férreas surgiram de idéias de grupos do setor privado, como banqueiros, fazendeiros, ou empresários, que viam a necessidade de transportar de maneira mais rápida as mercadorias, sobretudo o café.
Exemplos como a Estrada de Ferro Mauá, no Rio de Janeiro, e a São Paulo Railway, surgiram de um interesse privado em explorar o transporte por ferrovias no Brasil, nessa época sem um transporte mais eficiente.
No caso da São Paulo Railway, mesmo tendo muito de seus investimentos privados, a companhia precisou de um incentivo por parte do Governo Imperial como ajudas fiscais, redução ou isenção de taxas, além de itens que já estavam inclusos nos contratos de concessão.
Aliás, muitos dos que defendem a concessão de linhas de metrô ou trem não sabem na época, lembrando que estamos falando da era Imperial no Brasil em meados de 1860, o Governo em questão não necessariamente investiu na companhia, mas concedeu a empresa a exploração do traçado de Santos até Jundiaí, passando por São Paulo. A SPR (São Paulo Railway) ficou encarregada de construir a ferrovia do zero, construindo as vias, estações, comprando material rodante e contratando funcionários, além da manutenção na infraestrutura. Ficou tudo à cargo da eterna "Ingleza". 
As famosas "V8" da Companhia Paulista de Estradas de Ferro nos tempos dourados.
Empresa ferroviária reconhecida até os dias atuais pelo ótimo serviço.
Foto: Acervo Museu Companhia Paulista, reprodução: créditos ao autor.
O mesmo aconteceu anos depois com as outras companhias ferroviárias como a Estrada de Ferro Sorocabana (entre São Paulo e Sorocaba), a Companhia Paulista de Estradas de Ferro (entre Jundiaí e Campinas), e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (entre Campinas e Jaguari, atual Jaguariúna). Todas estas ferrovias foram fundadas com capital privado, mas com a concessão do Estado para construir suas estradas de ferro. Aliás, pesquisem sobre a Sorocabana, ela possui uma história bem complexa e interessante em muitos aspectos.
Claro, sempre havia interesses políticos que influenciavam muito as coisas nas ferrovias, como o fato da São Paulo Railway ter o monopólio da rota Santos à Jundiaí e somente ela ter o transporte férreo até o Porto de Santos graças aos direitos de exploração que impediram que qualquer outra ferrovia construísse outra linha em um raio de 30 quilômetros a partir da sua linha. 
Mas o fato é que graças ao incentivo do Governo, as companhias conseguiram tirar do papel suas linhas férreas para atender as demandas necessárias. O incentivo não precisa ser necessariamente o investimento através do dinheiro, mas em isenções de taxas, redução de impostos, além de garantias fiscais.
Por que não fazer uma concessão que seja benéfica para as empresas privadas, para o Governo, e para a população? Se o Estado não possui caixa para realizar obras de construção de ferrovias e rodovias, por que não licitar essas obras para que a iniciativa privada possa, além de construir, explorar a concessão? Se todos fizessem essas mesmas perguntas, não teríamos argumentos como "privatizando, tudo melhora." Somente ver o caso da Linha 6 Laranja que até os dias atuais não conseguiu realmente sair do papel, mesmo que a linha esteja sendo construída pela iniciativa privada seria encarregada de construir e operar a linha.
Tatuzão que construiria a linha 6 Laranja:
Consórcio que administraria a linha não conseguiu prosseguir com as obras.
Foto: retirado da internet, créditos aos autores.
O projeto da linha 6 Laranja foi concebido para ligar a estação São Joaquim da linha 1 Azul do Metrô até a futura estação Brasilândia, zona norte de São Paulo. Foi concedida à iniciativa privada para que o projeto fosse viabilizado, mas o que aconteceu foi o inverso do que as pessoas costumam achar das empresas privadas: por falta de verbas e ao travamentos de empréstimos devido ao envolvimento de uma das empresas do consórcio na Operação Lava Jato, o Consórcio Move São Paulo acabou parando as obras.
Historicamente falando, o governo não investia nas ferrovias, mas deixava à cargo das companhias privadas a questão de construir novas ligações ferroviárias. Se houvesse mais pesquisas, ou bom senso, das pessoas em saber mais afundo o assunto na qual elas falam tanto, não teríamos tantos erros nos argumentos atuais sobre as estatais. Assim como existem estatais deficitárias, existem também empresas privadas com uma administração tendenciosa, muitas vezes causando a falência da empresa, ou a má qualidade na prestação de serviços.
Locomotiva da Sorocabana: uma das mais importantes ferrovias da história do Estado.
Fonte: clique aqui.
A privatização da CPTM e do Metrô: uma história mal contada
Trem série 9500 da CPTM: série mais nova da companhia.
Foto: Autoria própria (Victor Santos).
Muito se fala na privatização da CPTM e do Metrô de São Paulo, sobretudo quando ocorrem falhas ou greves de funcionários. Surgem comparações no mínimo tendenciosas e vazias quando se compara a linha 1 Azul do Metrô, com os seus 44 anos em operação, com a "novata" linha 4 Amarela, inaugurada em 2010 e com suas obras se arrastando desde o início dos anos 2000.
A linha Amarela fora concedida à iniciativa privada em 2004, com o uso da PPP (Parceria Público-Privada), onde o Estado ficará encarregado de realizar as obras civis da linha, enquanto a ViaQuatro, empresa pertencente ao Grupo CCR, ficará encarregada da exploração da linha com a aquisição de trens e a operação dos mesmos. 
"Mas por que a comparação entre as linhas 1 e 4 é descabível?" Simples, como você quer comparar uma linha antiga, que foi a primeira da empresa, com um projeto antigo, com outra linha recém inaugurada, com novas tecnologias, novos trens, projetos novos, mas que também apresenta um número bem grande de falhas? Seria o mesmo que, à grosso modo, comparar um Fusca 1978 que já está com uma idade bem avançada, com um carro ano 2018 zero quilômetro.
Estação Pinheiros da Linha 4 Amarela: A "infalível" com falhas.
Foto: Math Teobaldo. Fonte: Via Trólebus 
Recentemente, outra linha do metrô de São Paulo foi concedida para, coincidentemente, a CCR, que fundou a Via Mobilidade para administrar a recém expandida linha 5 Lilás do Metrô, até então ligando o Capão Redondo até a estação Adolfo Pinheiro. Ou seja, após anos de investimentos, empréstimos e obras feitas pelo Metrô, a política de "Estado Menor" voltou a tona apenas quando a linha agora poderá ser mais aproveitada, uma vez que passará a interligar a zona sul de São Paulo a rede metroviária de forma mais direta com a recente entrega da extensão até Chácara Klabin.
O recém eleito para o governo de São Paulo João Dória, já disse em muitas entrevistas e na sua própria campanha, que vai privatizar muitas das estatais paulistas, entre elas a CPTM e o Metrô, alegando que assim os investimentos serão feitos de forma mais ágil. Embora isso seja uma política de governo, privatizar a CPTM não vai torna-lá uma linha 4 do Metrô assim do nada, não se moderniza 273 quilômetros de vias em apenas quatro anos. Se o sonho do paulista é ver a CPTM com o padrão "ViaQuatro" da CCR, infelizmente isso não irá acontecer, ao menos a curto prazo.
Se hoje a CPTM e o Metrô estão sucateados, foi graças a política de governo adotada no Estado nos últimos 20 anos, anos esses em que se houvesse o investimento correto nas companhias, ambas teriam hoje um dos melhores serviços de trens e metrôs do Brasil.
Trem série 4000 da ViaQuatro:
Linha é operada pela iniciativa privada.
Já parou para pesquisar como está a Supervia no Rio de Janeiro? A empresa, que é um consórcio que venceu a licitação do Governo do Rio de Janeiro em 1998, opera os trens de subúrbio na região metropolitana do Rio de Janeiro. Já viu fotos das estações da companhia? A operação nos últimos anos? Ou então a questão da segurança nos trens e estações? Caso a resposta for não estas perguntas, então é bom saber que muitas das mudanças que foram feitas na companhia nos últimos anos foi fruto do incentivo do poder público.
Embora nos últimos anos a Supervia tem melhorado muito com relação a frota e estações, se analisarmos que essas mudanças ocorreram cerca de 20 anos após a entrega das operações para o setor privado, seria tempo suficiente para, dentro da realidade, reformular todas as estações e trocar a frota mais antiga por novos trens.
Trens da Supervia: empresa opera os trens fluminenses desde 1998.
Foto: retirado da internet, créditos aos autores.
A questão é que quando se fala em privatização dos trens metropolitanos e do metrô, é necessário buscar a fundo o contexto, uma vez que o governo sempre precisará está presente para fiscalizar e gerenciar as linhas, mesmo aquelas controladas por empresas privadas.
Claro que uma parceria com o setor privado é sempre bem vinda, mas por que não fazer essa parceria como era nos primórdios do Estado, onde o governo apenas concedia o traçado que a empresa quer explorar, deixando ela encarregada de construir e operar a linha? Não é cômodo as empresas literalmente preferirem linhas prontas para operação do que construir novas linhas com o dinheiro próprio?
Por isso caro leitor, sempre que ouvir o termo "vamos privatizar tudo!", lembre-se dos casos mau sucedidos das concessões feitas no Estado e no país. Há muitas empresas que deram certo após as privatizações, mas há inúmeros exemplos de que apenas foram feitos para atender interesses privados, e que em muitos casos foram mau sucedidos.

Texto: Victor Santos.
Revisão: Gustavo Bonfate.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Avaliando SP: Terminais de ônibus (Área 6 Sul)

Terminal Parelheiros com a nova cobertura.
Foto: autoria própria.
Concentrando uma boa parte da população da cidade, e sendo também uma área muito extensa, a Área 6 - Sul de operação da SPTrans é atualmente uma região relativamente bem servida pelo transporte, embora esteja saturado. A região é muito conhecida pelos bairros distantes e pelas linhas longas e demandadas, conheceremos hoje os quatro terminais da gigante área 6. Observação: O terminal Santo Amaro, segundo a SPTrans, faz parte da Área 7 Sudoeste da cidade, por isso será mencionado em outra avaliação. 
Acesso do terminal Grajaú.
Foto: autoria própria
Terminal Grajaú - Entregue para a operação em 28 de outubro de 2004, o terminal hoje é um dos principais desta região, seja pelo fato de possuir inúmeras linhas locais que alimentam as linhas troncais, ou pelo fato de ser um terminal integrado fisicamente à estação Grajaú da linha 9 Esmeralda da CPTM (Osasco - Grajaú). O terminal também serve ao corredor Parelheiros - Rio Bonito - Santo Amaro da SPTrans, sendo um eixo muito demandado de transporte. Vamos avaliar esse importante terminal:
Acessibilidade - O acesso pela rua conta com rota tátil e sinalização visual boa. O terminal também conta com escadas rolantes, escadas fixas e um elevador para que o passageiro acesse a estação Grajaú da CPTM. 
Iluminação - Por ter um projeto moderno para um terminal de ônibus, a estrutura aproveita bem a iluminação natural, e durante os períodos noturnos a iluminação também é boa. 
Sanitários - Relativamente conservados pelo fluxo do terminal.
Conservação e limpeza - No dia da visita, o terminal estava em um estado de conservação muito bom, a limpeza também parece ser feita rotineiramente. 
Informações úteis - Como já avaliamos outros terminais, esse quesito quase sempre deixa à desejar. As informações, embora em um bom número, estavam pouco visíveis para os passageiros, mas  ao menos estavam atualizados. Cada linha possui um totem digital (exceto quando são pontos móveis) com as próximas partidas e funcionando bem. 
Bilheteria - Possui alguns guichês para o atendimento ao passageiro, mas no dia havia uma imensa fila para ser atendido. Talvez seja o reflexo da falta de mais máquinas de autoatendimento.
Máquinas de autoatendimento - Haviam duas máquinas de autoatendimento para recarga de bilhetes no interior do terminal, e somente estas. Pelo fluxo de passageiros diários, deveriam ter mais máquinas em outros locais do terminal.
Outros serviços - Máquinas de autoatendimento do Banco 24 horas e quiosques de lanchonetes (em grande número). 
Resumo - Com três plataformas, 36 linhas, sendo oito linhas noturnas e duas intermunicipais, e uma demanda bem alta de passageiros, o terminal é um grande centro de conexões "Tronco-alimentador", onde as linhas de bairro chegam ao terminal e o passageiro se transfere para linhas troncais em direção as estações de metrô ou ao centro, além de também utilizarem a linha 9 Esmeralda. O terminal recebe bem toda essa demanda de um dos distritos mais populosos da capital, talvez seja o melhor da região, embora opere no limite da sua capacidade real. 
Terminal Parelheiros.
Foto: autoria própria
Terminal Parelheiros - Inaugurado em 16 de junho de 2003, o terminal atualmente é o mais distante do centro da capital, cerca de 60 quilômetros da Praça da Sé, e atende aos distritos de Parelheiros e Marsilac, outro distrito ao sul de Parelheiros. O terminal seria ponto final do Corredor Parelheiros - Santo Amaro, porém o corredor em si atende ao bairro apenas pelas faixas "exclusivas" desde o terminal Parelheiros até o terminal Varginha, sendo a partir desse que o corredor realmente começa. Duas curiosidades: o distrito está próximo da Área de Preservação Ambiental Capivari-Monos e, em tese, não poderia se incentivar a ocupação do lugar. O distrito está a cerca de 20 quilômetros do centro de São Vicente, baixada santista. Em setembro, a prefeitura entregou, após atrasos, a reforma da cobertura do terminal, aumentando a proteção de chuvas. Vejamos como está o terminal após as reformas.
Acessibilidade - Há faixas de pedestres com a guia rebaixada nos arredores do terminal, rota tátil no único acesso e faixas de pedestres para acessar as plataformas bem sinalizada e com guia rebaixada.
Iluminação - Relativamente boa durante os dias, e a noite a iluminação também é boa. 
Sanitários - Conservados e bem sinalizados para o público.
Conservação e limpeza - No dia da visita, fazia um dia após as obras de reforma da cobertura, e havia um pouco de sujeira nas plataformas. 
Informações úteis - Havia placas de posição das linhas em cada plataforma, igual a dos demais terminais. Os totens digitais ainda não haviam sidos ligados, mas cada linha possui o seu.
Bilheteria - Pequena e com poucos guichês, mas sem movimento alto, localizada no acesso do terminal.
Máquinas de autoatendimento - Possui uma única máquina para recarga dos bilhetes, além dos pontos de consulta de saldo.
Outros serviços - Máquinas de autoatendimento do Banco 24 horas. 
Resumo - Atendendo à 12 linhas, o pequeno terminal recebe de forma razoável aos passageiros. Suas três curtas e estreitas plataformas, que recebem desde pequenos ônibus aos ônibus articulados de 18 e 23 metros, não parece receber tantos passageiros vindos dos bairros dentro da Área de Proteção Ambiental. Assim como o terminal do Grajaú, este também opera no limite da capacidade projetada.
Terminal Varginha.
Foto: autoria própria
Terminal Varginha - Entregue em 24 de julho de 2004, o terminal, assim como o de Grajaú e o de Parelheiros, foi projetado para atender ao corredor Parelheiros - Santo Amaro de forma mais eficiente. Recebeu muitas reformas ao longo dos seus 16 anos em operação, mas em breve pode ser transferido de lugar com a chegada da linha 9 Esmeralda da CPTM ao bairro. A nova estação será onde, até 2001, existia uma parada da então extensão operacional da linha C Celeste. Ainda não se sabe o que vai acontecer com a atual estrutura do terminal, mas vamos avaliar como ele recebe hoje os passageiros.
Acessibilidade - Rota tátil desde os acessos, faixas de pedestres com guia elevada, e sinalização visual e sonora boas, o terminal é muito bom neste quesito. Por ser ao nível da rua, não possui rampas ou escadas. 
Iluminação - Aproveita bem a iluminação natural graças as suas laterais vazadas, e durante as noites o terminal é bem iluminado. 
Sanitários - Bem conservados e limpos para tantas pessoas que circulam pelo terminal. 
Conservação e limpeza - Durante os anos, o terminal passou por algumas reformas e hoje parece está muito conservado e bem limpo. 
Informações úteis - Todas as plataformas possuem placas com informações das linhas e algumas notícias, embora em pouco número. As linhas também possuem os totens digitais, todos funcionado.
Bilheteria - Localizada no acesso do terminal, a bilheteria possui poucos guichês, mas não havia fila no dia da visita. 
Máquinas de autoatendimento - No dia da visita, haviam quatro máquinas de recarga dos bilhetes, todas funcionando e aceitando dinheiro em espécie ou cartão de débito.
Outros serviços - Máquinas de autoatendimento do Banco 24 horas e quiosques de lanchonetes.
Resumo - Com quatro plataformas, 36 linhas municipais, sendo duas noturnas de passagem, o terminal atende muito bem aos moradores dos bairros afastados da cidade. Os três terminais dessa área operacional são atendidos pelo corredor Parelheiros - Santo Amaro, e é por ele que as linhas troncais destes terminais são beneficiadas com uma boa velocidade comercial e melhor segregação. Há projeções da construção de novos terminais na região, mas o que realmente deve sair do papel é o futuro novo terminal do Varginha, anexo à também futura estação Varginha da CPTM.

Confira outras avaliações do Blog: Terminais da Área 1 Noroeste, Área 2 Norte, Área 3 Nordeste, Área 4 Leste, e Área 5 Sudeste.
Dia da visita: 26 de setembro de 2018.