sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Ferrovia em Parelheiros: Por que não?

Vista aérea do distrito, próximo do terminal de ônibus.
Foto: São Paulo Bairros.
A cidade de São Paulo é facilmente reconhecida por ser uma metrópole gigantesca, em população e área, gerando os grandes problemas que existem na cidade: tráfego congestionado, viagens longas e demoradas, e um imenso problema na distribuição dos transportes na cidade.
Um desses distritos é Parelheiros, um dos maiores da cidade embora um dos menos povoados, que possui uma rede de transportes limitadas e mal dimensionadas, mas que um dia teve uma linha férrea em operação na região. Será que é valido a construção de uma nova linha de trem ou metrô na região?
Com 153 quilômetros quadrados de área geográfica, Parelheiros é fortemente conhecido por ser o distrito mais distante do centro da capital paulista, cerca de 50 quilômetros da Praça da Sé (marco zero da cidade). Curiosamente, o distrito está mais próximo do centro das cidades de Itanhaém e São Vicente, cerca de 15 e 20 quilômetros respectivamente. Também há o distrito de Marsilac, após Parelheiros, sendo último distrito do extremo sul de São Paulo, fazendo divisa com as cidades de São Vicente e Itanhaém.
O distrito começou a se formar no início dos 1800 com a imigração alemã, embora já houvesse uma população de nativos na região. O local era conhecido por Santa Cruz, pois na região havia uma cruz que havia, mudando o nome para Parelheiros um tempo depois. Como acontecia muitas corridas de cavalo, as parelhas, entre brasileiros e alemães, isso foi utilizado para dar o novo nome.
Com a abertura de novas estradas de acesso para Cipó-Guaçu (atual Embu-Guaçu), foi difícil não acontecer o loteamento na região, visto que os acessos agora seriam melhores. A Estrada de Parelheiros permitia o acesso à Embu-Guaçu, Vila São José e a região da Represa do Guarapiranga até Santo Amaro, na época ainda cidade independente.
Com o forte crescimento das regiões mais centrais e do agora distrito de Santo Amaro, muitos habitantes acabaram buscando moradias na região de Parelheiros pelos baixos valores de terrenos ou aluguéis em relação as demais regiões. Isso também foi impulsionado pelo planejamento mal feito entre as décadas de 1960 e 1980, onde muitos habitantes foram morar nos extremos da cidade, deixando o uso e ocupação do solo desordenado.
Localização do distrito de Parelheiros.
Mapa: Victor Santos, 2021.
Embora esteja dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Capivari-Monos, e da APA Ilha do Bororé-Colônia, as ocupações regulares e irregulares cresceram ao longo dos mananciais e áreas próximas da Represa Billings, causaram danos ao meio ambiente e urbano da região. O resultado foi uma região distante de grandes universidades, escolas, hospitais, polos de serviços e comerciais, além de um crescimento desorganizado e sem prever melhorias ao distrito como ruas asfaltadas, iluminação pública, escolas ou centros de saúde.
Houve uma melhoria significativa em relação ao transporte público e mobilidade urbana, com a chegada do terminal de Parelheiros em 2004, e uma reorganização das linhas de ônibus na região, permitindo uma discreta melhoria no tempo de viagem e espera pelos coletivos.
Ainda hoje o principal acesso a região continua sendo a Estrada Ecoturística de Parelheiros ou avenida Sadamu Inoue. Essa via permite acesso a avenida Senador Teotônio Vilela, chegando na região de Santo Amaro e Interlagos.
Atualmente, segundo Censo de 2010, habitam cerca de 140 mil pessoas na região, muito menos se comparados a outros distritos menores em área geográfica. O distrito responde hoje a subprefeitura ou prefeitura regional de Parelheiros, que engloba também o distrito de Marsilac, representando 23,68% da cidade com seus 353 quilômetros quadrados de área.
O distrito se desenvolveu ao longo dos anos com a chegada de Unidade Básica de Saúde (UBS), um hospital de grande porte, comércios de pequeno e médio porte, além da melhoria no saneamento básico, iluminação pública e nas vias de tráfego.

A primeira e única linha férrea
Em 1937, a então Estrada de Ferro Sorocabana inaugurou sua linha ligando Mairinque a cidade de Santos, baixada santista, a conhecida linha Mairinque-Santos. A linha partia de Mairinque em direção ao Porto passando pelo extremo sul de São Paulo, no distrito de Marsilac, após sair da cidade de Embu-Guaçu. Em Marsilac, havia duas pequenas estações da linha: a própria Marsilac e Evangelista de Sousa. A linha nunca teve o propósito de atender o transporte urbano, tão pouco era usada para essa função pelos habitantes da região, uma vez que o principal foco era o transporte de cargas, embora tenha havido o transporte de passageiros até meados de 1990 pela linha.
Possível local da antiga estação de Colônia.
As estações nos distritos de Parelheiros e Marsilac foram
demolidas ainda nos anos 1970.
Foto: Robson Souza, retirado do Estações Ferroviárias.
Para diminuir a distância entre a capital paulista e o Porto de Santos pelas suas linhas, em 1957 a Sorocabana inaugurou o Ramal de Jurubatuba, partindo da estação de Imperatriz Leopoldina, na linha Tronco (São Paulo – Sorocaba), e encontrando a linha Mairinque-Santos na estação de Evangelista de Sousa. Boa parte do trajeto margeava o Rio Pinheiros, passando também pela região das represas ao sul da capital.
A linha, por consequência, passava por dentro dos distritos de Grajaú, Parelheiros e Marsilac, na época em formação e crescimento dos bairros, além é claro de distritos as margens do Rio Pinheiros. Porém, diferente de outras regiões que após receberem uma ferrovia passaram pelo processo de crescimento e industrialização, estes distritos não foram por esse caminho, continuando com a tipologia de bairros dormitórios.

O transporte urbano começou a ser feito na linha nos anos 1960, permitindo o acesso da população as regiões mais centrais, além de ter também os trens de longo percurso entre São Paulo e Santos passando pela linha. Isso mesmo, era possível ir do extremo sul da cidade para a estação Júlio Prestes ou Santos de maneira direta e com um único trem.
Em Parelheiros, havia três estações ou paradas do ramal Jurubatuba, sendo elas: Colônia, Barragem e Casa Grande. Na verdade eram pontos de parada simples, sem uma estrutura maior para ser uma estação, como bilheterias ou cobertura nas plataformas. Todas as três paradas estavam localizadas em zonas rurais, com chácaras e aldeias indígenas nos arredores. Há relatos que a estação de Casa Grande se chamava Parelheiros por um período, embora sua localização esteja bem distante do centro do distrito.
As três estações que existiram no distrito, assim como
as duas em Marsilac.
Mapa: Victor Santos, 2021.
Todas as paradas foram inauguradas com o ramal em 1957, sendo usadas para chegar nos bairros mais afastados da cidade, ou como forma de chegar nos sítios e chácaras que ainda hoje existem na região.
Nos anos 1970, a Fepasa, sucessora da Sorocabana, iniciou a reforma do ramal Jurubatuba para melhorar o atendimento do serviço de trens urbanos no trecho, agora para a então Linha Sul da companhia. A reforma alargou o leito ferroviário, o que ocasionou na demolição de todas as estações entre Ceasa e Jurubatuba, com exceção dessa última. Também houve a colocação da bitola de 1.600 mm, deixando o trecho até Jurubatuba com bitola mista (1.000 mm e 1.600 mm), além da duplicação do trecho.
Estação Evangelista de Sousa, ponto final do Ramal de Jurubatuba,
e de passagem da linha Mairinque-Santos.
Estação abandonada desde o fim o transporte de passageiros.
Foto: Thiago H. Teixeira, retirado do Estações Ferroviárias.
Há essa altura, todas as paradas no distrito de Parelheiros estavam abandonadas, sendo posteriormente demolidas, acabando com uma possível chance de os trens urbanos atender a região, se limitando a estação de Jurubatuba, essa reinaugurada apenas em 1987. Durante esse período, apenas trens cargueiros e de passageiros para Santos utilizavam o trecho.
Embora os trens de passageiros para Santos existissem até meados dos anos 1990, o trecho pós Jurubatuba ficou sem uma maior utilização para passageiros até 1992, quando a Fepasa inaugurou a extensão Jurubatuba – Varginha, passando por Interlagos e Grajaú. Isso durou até 2001, quando a CPTM, que assumiu as operações em 1996, encerrou as atividades naquela região por motivos de segurança. Foi o mais próximo de um trem urbano na região do extremo sul da cidade teve, e atualmente nem os trilhos sobraram no trecho pós Grajaú. Veja mais sobre ela aqui: CPTM e as extensões operacionais
Extensão operacional Jurubatuba - Varginha:
Foi o mais próximo que Parelheiros voltou a ter de trens urbanos.
Linha foi desativada em 2001, e aos poucos será retomada.
Mapa: Victor Santos, 2021.
Atualmente, a CPTM está retomando o transporte urbano na região, com a inauguração do trecho Jurubatuba – Grajaú entre 2007 e 2008, sendo atualmente a Linha 9 Esmeralda (Osasco – Grajaú), e em breve deve retornar até Varginha, passando por Mendes-Vila Natal (esta última já entregue). Porém, Parelheiros ficará de fora do novo trecho, embora ainda tenha parte do leito ferroviário ainda existente na região, mas sem trilhos é claro.

Então por que não retomar o trem para Parelheiros?
Por estar justamente dentro das zonas de proteção ambiental, trazer o transporte de alta capacidade para a região causaria uma mudança muito drástica no cenário urbano dos distritos adjacentes, com o crescimento da especulação imobiliária e ocupação de áreas hoje sem uso. Essa mudança poderia gerar danos irreversíveis ao meio ambiente, sobretudo por ser uma zona frágil e último vestígio da mata nativa.
Ou seja, os projetos voltados ao transporte e mobilidade nessa região pode passar por um longo para conseguir autorizações ambientais para construir uma linha de metrô ou trem, tornando-se algo inviável tanto financeiramente quanto ambientalmente falando. Devido a isso e outros fatores, a CPTM descartou a extensão da linha 9 até o distrito, finalizando a linha em Varginha, que deve ficar pronta em 2022.
Mesmo que haja promessas em épocas eleitorais, tecnicamente falando não haveria possibilidade de nenhuma linha do sistema metroferroviário de São Paulo chegar ao distrito sem impactos negativos ou que seja viável para o sistema. Além disso, imaginem o caos no trânsito, uma vez que a região não possui vias que comportem um possível aumento no tráfego, já que o distrito tem uma característica mais rural ou de pequeno porte.
Passa-Rápido Parelheiros, inaugurado em 2004.
Mapa: Victor Santos, 2021.
Além do terminal Parelheiros, que recebe duas linhas estruturais em direção à Santo Amaro e ao Metrô Vila Mariana e linhas locais para os bairros, o distrito é atendido indiretamente pelo corredor Passa-Rápido Parelheiros – Rio Bonito – Santo Amaro, implantado em 2004 juntamente com o terminal. Indiretamente pois as vias exclusivas à esquerda da via do corredor seguem a partir do terminal Varginha em diante, enquanto apenas faixas exclusivas à direita atendem Parelheiros pela avenida Sadamu Inoue. Quando acontece algo nessa avenida, seja tráfego intenso ou acidente, o transporte por ônibus é prejudicado diretamente, e não é incomum que os passageiros passem cerca de duas horas nos coletivos.
O terminal Parelheiros por sinal não comporta todas as linhas da região, o que impediu reestruturar melhor as linhas de ônibus, que continuavam a seguir até os terminais Varginha, Grajaú ou Santo Amaro, mesmo com a inauguração do terminal. São 12 linhas em operação, além das 10 linhas de passagem pela região, sendo duas metropolitanas para Embu-Guaçu. 
Terminal Parelheiros: Pequeno para a necessidade do distrito.
Foto: Victor Santos, 2019.
Por fim, uma das regiões mais distantes da cidade ainda permanecerá com o atendimento feito apenas pelo transporte por ônibus, e apenas na lembrança de poucas pessoas que vivenciaram os antigos trens passando pelo ramal de Jurubatuba.

Texto: Victor Santos.
Fontes: 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

BRS ou BRT? Entenda a diferença

Ônibus parado em uma estação do
BRT de Uberlândia.
Foto: Victor Santos, 2021.
Assim como as cidades, os modais de transporte de passageiros se aprimoraram ao longo dos anos para atender, de maneira eficiente e dinâmica, a demanda de passageiros nos grandes centros urbanos. Dessa forma, surgiram opções cada vez mais dedicadas a um tipo de serviço diferente no transporte, como é o caso do BRS, uma ramificação do consagrado sistema de BRT. Saiba quais são as principais diferenças entre os dois, e se há melhorias na escolha do BRS.
Biarticulado em operação nas canaletas de Curitiba. Cidade foi pioneira no quesito exclusividade para ônibus.
Foto: Victor Santos, 2021.
Antes de tudo, BRS vêm da sigla em inglês Bus Rapid Service, ou Serviço Rápido por Ônibus na tradução. Inicialmente implantado na cidade do Rio de Janeiro em 2011, a modalidade busca aprimorar o transporte por ônibus em regiões onde não há possibilidade de construir um sistema de BRT (Bus Rapid Transit, ou Trânsito Rápido por Ônibus).
Embora com nome mais recente, a ideia de reservar faixas dedicadas para o transporte por ônibus nas cidades surgiu em meados dos anos 1970, quando a grande maioria das cidades passaram por problemas em seu transporte coletivo, com um aumento no uso dele em decorrência da Crise do Petróleo nessa década e o crescimento dos centros urbanos. Foi justamente a partir disso que surgiram os primeiros corredores exclusivos para os ônibus, como em Curitiba (em 1974) e São Paulo (em 1980).
O intuito do BRS é justamente melhorar a circulação dos ônibus e diminuir o tempo de percurso, porém sem as intervenções que um sistema de BRT precisa, otimizando o tempo e recursos.
Passa-Rápido Jardim Ângela - Guarapiranga - Santo Amaro em São Paulo. 
Corredores e faixas exclusivas foram amplamente usadas em muitas cidades.
Foto: Victor Santos, 2021.

As características de um sistema BRS são:
  • Faixas dedicadas aos ônibus, de maneira temporária (com horários específicos) ou permanente
  • Escalonamento de pontos de parada, ou seja, em locais de grande concentração de linhas de ônibus, seus pontos de parada são divididos para melhorar a distribuição das linhas e evitar o acúmulo de veículos em um mesmo ponto;
  • Otimização da frota de ônibus, reduzindo a quantidade de veículos circulando em um mesmo eixo ou setor;
  • Fiscalização nas conversões, estacionamento e circulação dos automóveis e veículos de serviço nas faixas dedicadas aos ônibus, proibindo ou restringindo;
  • Melhoria nas informações aos usuários nos pontos de parada e ônibus sobre as linhas, serviços ou arredores dos pontos.
Faixas de ônibus em Campinas (SP), o chamado Corredor Central, instalados no canteiro central das avenidas.
Foto: Victor Santos, 2021.

Olhando rápido, as características do BRS se parecem com as do BRT, talvez por isso haja essa confusão entre as duas modalidades, gerando a falsa sensação de que ambos são iguais ou equivalentes.
As características de um sistema de BRT são:
  • Vias ou faixas totalmente exclusiva para os ônibus, de maneira permanente e, quando possível, separados fisicamente do tráfego geral (por barreiras ou guias)
  • Estações de parada com pagamento antecipado da tarifa, nivelamento entre o piso das plataformas e os ônibus, e informações aos usuários sobre rotas e serviços
  • Mudanças mais profundas nas vias e regiões que passaram pelas intervenções, alterando a geometria ou circulação das vias para o tráfego geral
  • Normalmente estão instalados nos canteiros centrais das avenidas, evitando o conflito de tráfego entre os ônibus e os demais veículos nas conversões à direita
  • Melhoria na oferta de rotas, racionalizando as linhas em um mesmo setor para evitar excesso de veículos, além da criação de percursos mais diretos e com transferências rápidas
  • Operação de veículos com maior capacidade para transporte (articulados ou biarticulados)
BRT de Sorocaba: Ônibus articulados fazem parte das rotas principais do sistema sorocabano.
Foto: Victor Santos, 2021.

Com isso, resumimos que o BRS nada mais é que a criação de faixas exclusivas ou preferenciais em vias por onde circulam muitas linhas de ônibus, sem estações ou vias totalmente segregadas para eles.
Já o sistema de BRT pode melhorar, não somente a circulação dos ônibus, mas contribuir para a mobilidade urbana das regiões atendidas, além de incentivar o uso do transporte público com o ganho de tempo e aumento na oferta. O BRT comprovou ao longo dos anos que suas operações com tráfego separado do fluxo de automóveis, estações mais preparadas para os passageiros e veículos de maior capacidade podem alterar, em maior escala, as cidades onde são construídos.

Não que as faixas exclusivas de um sistema de BRS não causem mudanças significativas nas regiões implantadas, pois toda exclusividade para o transporte coletivo é bem-vinda para melhorar a circulação. Porém, é importante mencionar que um não substitui o outro, pois ambos têm sua função especifica dentro do transporte urbano.
Por exemplo, em vias onde há uma grande concentração de linhas de ônibus, mas não há como construir corredores exclusivos por falta de espaço físico ou maiores investimentos, um sistema de BRS pode auxiliar nas operações nestes locais. Como não precisa de grandes obras ou mudanças mais radicais, o BRS permite um aumento na oferta do transporte e a diminuição do tempo de viagem, tudo isso em um menor tempo de implantação.

Trólebus em operação no Corredor Paes de Barros: Inicialmente foi rejeitado por moradores e comerciantes da região da Mooca.
Foto: Victor Santos, 2021.

Porém, o BRS não deve ser uma medida isolada ou como uma solução em cidades ou regiões com uma demanda por transporte em crescimento, pois com o tempo pode se sobrecarregar e perder a eficiência proposta. O sistema deve ser uma medida provisória ou auxiliar até que seja construído um sistema de maior capacidade, seja BRT ou não.
No caso de um sistema BRT, sua função é reestruturar a rede de transportes de uma região ou cidade, com um impacto maior que um BRS, realizando intervenções maiores e causando uma mudança mais brusca na rede.
Óbvio que muitos sistemas de transporte anunciam a implantação de faixas exclusivas do tipo BRS como algo revolucionário ou que resolverá de uma vez só a questão dos congestionamentos nos centros urbanos. O fato de ter um custo de implantação muito mais baixo que os corredores BRT acaba atraindo muito mais atenção das gestões públicas, que buscam associar o baixo custo de implantação e maior facilidade para ser inaugurado.

Como dissemos acima, o BRS é importante para regiões ou cidades que não comportam corredores do tipo BRT, seja por inviabilidade técnica ou financeira, propondo melhorias em menor tempo e custo. Mas vale ressaltar que isso não substitui um sistema de maior capacidade de transporte e precisa ser muito bem estudado em questões de demanda, viabilidade e impactos. Afinal, o maior inimigo das faixas ou corredores para ônibus é justamente aqueles que precisaram se adaptar a ele, comerciantes ou motoristas da região.

O caso de Uberlândia
Um exemplo que confunde muitos dos entusiastas nessa questão do que é um BRT ou BRS é o sistema de Uberlândia, em Minas Gerais. O primeiro corredor da cidade mineira foi entregue em 2006, fazendo parte do Sistema Integrado de Transporte de Uberlândia (o SIT), sendo um dos muitos projetos para melhorar as operações no transporte público da cidade.

Ônibus circulando no corredor Segismundo Pereira, inaugurado em 2018.
Foto: Victor Santos, 2021.

O projeto do corredor contemplou a separação dos ônibus do tráfego comum nas vias, implantação de estações com pagamento antecipado da tarifa, construção de terminais integrados e alteração na circulação das linhas (implantação do sistema Tronco-alimentador).
Poderia ser somente mais um sistema de corredores BRT, se não fosse uma questão: as estações foram construídas para receberem ônibus com piso baixo (low entry), ou seja, com as plataformas ao nível da rua.

Corredor do Jardim Ângela, São Paulo:
Em todos os corredores da cidade, a operação é feita exclusivamente por veículos com piso interno rebaixado.
Foto: Victor Santos, 2021.

Estação Shopping do BRT de Uberlândia:
Operação atual é feita com veículos com piso comum, mesmo sendo um corredor com plataformas baixas.
Foto: Victor Santos, 2021.

Esse tipo de projeto possivelmente foi inspirado em outros sistemas, como o de Brasília (DF) e São Paulo (SP), onde o piso das estações está ao nível da rua, e a operação é feita com ônibus piso baixo.
No caso de Uberlândia, os veículos que operam nos corredores atualmente não possuem o piso rebaixado para facilitar o embarque e desembarque, e a grande maioria é do tipo convencional ou básico (com motorização dianteira). Ou seja, apesar de ser uma estação do tipo BRT, o embarque não é nivelado com o piso dos ônibus, gerando desconforto e atrasos nas operações. Imaginem quando um cadeirante ou idoso precisa embarcar nos horários de pico?

Ônibus do sistema Vetor, Uberaba:
Estações modernas fazem parte do pequeno sistema de BRT da cidade mineira.
Foto: Victor Santos, 2021.
Há cerca de duas horas da cidade, em Uberaba, foi inaugurado em 2015 o sistema de BRT da cidade, o BRT Vetor, onde as estações foram construídas ao nível dos coletivos, não necessitando de equipamentos auxiliares para os embarques e desembarques. Tudo bem que no Vetor também há operações de veículos básicos nos corredores, mas ao menos o embarque e o pagamento da tarifa antecipado é garantido na maior parte dos 15 quilômetros de corredores.
Na questão técnica, não importa se as estações estão ao nível dos ônibus ou da rua, mas que sigam as questões como embarque e desembarque com pagamento antecipado da tarifa, informação aos usuários sobre as linhas e rotas, e reestruturação das linhas de ônibus. Isso é um dos principais itens que diferencia um corredor BRT de um sistema de BRS.

Terminal Centenário, em Curitiba:
Embarque em nível e com auxílio de rampas permite uma operação mais segura e eficiente. 
Foto: Victor Santos, 2021.

Caso de São Paulo
Além do Rio de Janeiro, que dispõe de 45 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus do tipo BRS (além de 123 quilômetros de corredores BRT), outras cidades no Brasil acabam optando por essas faixas exclusivas para melhor acomodar os ônibus em avenidas ou ruas congestionadas.
É o caso de São Paulo, com 139 quilômetros de corredores exclusivos para os ônibus à esquerda das vias, ainda possui cerca de 500 quilômetros de faixas exclusivas para os ônibus, seja temporária (com operação em horários de pico) ou permanente. Normalmente as faixas exclusivas estão instaladas à direita das vias, mas há casos em que elas estão implantadas à esquerda das vias.

Corredor Itapecerica:
Cerca de 140 quilômetros de corredores fazem parte do sistema paulistano de ônibus.
Foto: Victor Santos, 2021.
Algumas dessas faixas são utilizadas para interligar os corredores entre si, como é o caso das faixas exclusivas implantadas na Rótula Central do centro de São Paulo, onde através delas os ônibus conseguem acessar os principais terminais da região e outros corredores com maior agilidade.
Embora não levem o título de BRS, essas faixas atendem aos mesmos quesitos do BRS, como escalonamento de pontos de parada, alteração nos locais de estacionamento, além da pequena melhoria na circulação das linhas nesse setor. Exemplo: Faixa exclusiva das avenidas Celso Garcia, Gasômetro e Rangel Pestana, interligando a região central até o distrito da Penha, região nordeste da cidade.

Na realidade, os próprios corredores exclusivos de São Paulo podem ser categorizados como BRS, pois apesar de serem, na maioria das vezes, segregado e com pontos de parada mais adequados, não possuem os quesitos mínimos para serem corredores do tipo BRT.
Ou seja, apesar dos cerca de 140 quilômetros de corredores, boa parte está muito abaixo do necessário para ser um serviço mais rápido e de maior capacidade de transporte, com a única exceção ao corredor Expresso Tiradentes, com apenas 9,7 quilômetros de extensão.
O Expresso Tiradentes é o único sistema de BRT da maior cidade do país, sendo também o único do tipo em toda a região metropolitana de São Paulo.

Ônibus parado no terminal Mercado do Expresso Tiradentes:
Cerca de 10 quilômetros compõe o único BRT da região metropolitana de São Paulo. 
Foto: Victor Santos, 2021.

Infelizmente é um potencial perdido que São Paulo tem, pois seria muito vantajoso requalificar alguns dos corredores atuais para BRT, permitindo uma redução nos problemas atualmente encontrados como superlotação, maior tempo de parada nos pontos, oferta abaixo do necessário e problemas estruturais.

Por fim, como em muitos artigos que já publicamos aqui no blog, é necessário um olhar mais técnico quando se observa um sistema de corredores ou faixas exclusivas para ônibus e observar as características de cada um. Não apenas para criticar ou achar que está sendo enganado pelas gestões públicas, mas para sugerir mudanças, se necessárias, para melhorar as operações e aperfeiçoar questões ainda atrasadas.
Afinal, quem mais saberia dizer onde estão os problemas e questões se não os próprios passageiros que vão utilizar ou utilizam aquele sistema de transporte diariamente, praticamente um terço de sua vida no transporte coletivo.

Texto: Victor Santos
Fontes:

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Por que existem duas estações na Lapa?

Trem série 8000 passando pela Linha 8
ao lado da estação Lapa da Linha 7 Rubi.
Foto: Victor Santos, 2021.
Um dos grandes problemas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, ou CPTM, é solucionar as questões herdadas das companhias ferroviárias anteriores a ela, que por consequência, prejudicam as operações diárias e a imagem da empresa. Dentre esses problemas estão as estações Lapa da companhia, sim, no plural. Essas duas estações distintas são alvos de discussões de como resolver isso, e iremos saber mais sobre elas hoje.

O bairro da Lapa já estava em amplo crescimento quando em 1867 a ferrovia passou a cortar o bairro com a linha Santos - Jundiaí da São Paulo Railway (SPR), e posteriormente instalando diversos armazéns e até mesmo suas oficinas no local. Mas a estação Lapa mesmo somente foi construída em 1° de julho de 1899, mantendo-se a mesma até os dias atuais.
Durante esse período, o bairro acabou sendo industrializado com a chegada da ferrovia, se expandindo para o norte da linha férrea, chegando as margens do Rio Tietê. Hoje é chamado Lapa de Baixo. 
Ainda hoje há uma grande quantidade de indústrias no local, enquanto a parte mais antiga do bairro, denominada Alto da Lapa, continuou com a sua economia voltada para a prestação de serviços, comércio e residências.
Estação original da Lapa
com a passarela metálica em primeiro plano.
Foto: Estações Ferroviárias, autor desconhecido.

Atual estação Lapa-SPR, agora pela Linha 7 Rubi.
Foto: Victor Santos, 2021.
A estação foi reconstruída na década de 1940, já durante a gestão da EFSJ (Estrada de Ferro Santos-Jundiaí), sucessora da SPR, para melhorar o atendimento da alta demanda dos trens urbanos daquela época. Isso causou a descaracterização da arquitetura original da estação, deixando a estação no padrão de estações dos trens urbanos da época. Nas proximidades está localizado as Oficinas da Lapa, instaladas no local na mesma época da estação.
O prédio atual utilizado pela CPTM para a Linha 7 Rubi é o mesmo desde a sua última reforma pela EFSJ, com poucas alterações feitas pela CPTM.
Trem Toshiba da Estrada de Ferro Sorocabana na
parada original da Lapa-Sorocabana (Km 7).
Foto: Estações Ferroviárias.
Em 1958 foi aberta a segunda estação no bairro, em 1° de junho daquele ano, ainda pela Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), embora a linha São Paulo – Sorocaba já estivesse em operação desde 1875 passando direto pela região.
A estação da Sorocabana foi aberta próxima da linha da SPR, no trecho onde as duas linhas das distintas companhias férreas percorriam paralelas desde a região da Luz até as proximidades da Lapa. Obviamente por serem companhias diferentes, suas estações eram separadas e distantes uma da outra.
Atual estação Lapa-Sorocabana, agora pela Linha 8 Diamante.
Foto: Wikipédia.
Pelos fatos históricos, já havia uma parada denominada como Km 7 na região para atender aos armazéns próximos, sendo inaugurado uma estação mesmo em 1958. Pouco depois da Parada do quilômetro 7 há um intercâmbio entre as duas linhas férreas da região, onde os trens poderiam acessar a linha Santos – Jundiaí ou a São Paulo – Sorocaba em vice-versa. Esse acesso ainda existe atualmente, sendo usado pela CPTM para deslocar trens entre as linhas.
Quando inaugurada, a Estação Lapa da Sorocabana era atendida por trens de bitola estreita (de 1.000 mm), mas na década de 1970 foi reconstruída para receber trens de bitola maior (1.600 mm), uma vez que a demanda cresceu nos trens metropolitanos. A reconstrução foi feita já pela Fepasa, que sucedeu a Sorocabana e passou a administrar sua rede férrea, incluindo os trens metropolitanos.
A nova estrutura foi entregue junto com a remodelação da linha entre Júlio Prestes e Itapevi em 25 de janeiro de 1979, enquanto a antiga parada junto com a passagem em nível que havia no local foi fechada. Hoje, a mesma estrutura de 1979 atende a Linha 8 Diamante da CPTM.

Até 1992 a Região Metropolitana de São Paulo contava com duas companhias ferroviárias para a operação das linhas de trens metropolitanos: a CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), uma subsidiária da RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima), e a Fepasa (Ferrovias Paulistas Sociedade Anônima), esta última de administração pelo Governo do Estado de São Paulo.
Por serem companhias diferentes, nunca houve um projeto de construir uma estação única e integrada na Lapa, sendo a única conexão física e tarifária entre as duas ocorrerá somente em 1988 com a inauguração da estação Barra Funda do Metrô, que acabou por integrar as duas linhas ao metrô.
Com a chegada da CPTM em 1992, ambas as linhas foram incorporadas a malha da companhia, e a possibilidade de integrar as estações ficaram mais fáceis de serem feitas. Com a CPTM, as linhas foram renomeadas, agora a antiga linha da Santos – Jundiaí seria, em partes, a Linha A – Marrom, enquanto a antiga linha Oeste da Fepasa passou a ser a B – Cinza.

Com essa nova nomenclatura, as duas estações ficaram conhecidas como Lapa A, para a linha entre a Luz, Francisco Morato e Jundiaí, e Lapa B para a linha entre Júlio Prestes e Amador Bueno.
Em 2008 essa nomenclatura foi alterada novamente para unificar com a nomenclatura das linhas do Metrô de São Paulo, agora utilizando números e pedras preciosas no lugar das letras e cores. Sendo assim, a linha A Marrom passou a ser 7 Rubi, e a B Cinza é hoje a 8 Diamante.
Atualmente, ambas as estações possuem uma demanda alta, sejam pelas linhas de ônibus que atendem as estações ou pelo grande número de indústrias, polos de serviços e de interesse instalados nas proximidades de cada uma.
Mesmo separadas e em localizações diferentes no distrito da Lapa, os passageiros podem atravessar a ferrovia chegando por ambas as estações através das passagens subterrâneas para pedestres na região. Para quem chega pela linha 7, há também a possibilidade de cruzar a linha pela própria passarela da estação e estando fora da área paga da estação, sendo acessível até para os pedestres cruzar de um lado para o outro.
Localização das duas estações e do terminal Lapa.
Autor: Victor Santos, 2021.
E qual seria o problema de existir duas estações Lapa sem integração entre elas? O simples fato de limitar os passageiros que embarcam pela Lapa A em somente podem seguir pela Linha 7 Rubi, não permitindo que eles acessem a Linha 8 Diamante, e vice-versa. Por conta disso, os passageiros das linhas de ônibus que atendem a Lapa A não tem acesso a Linha 8 e ao terminal Lapa da SPTrans, este integrado a Lapa B somente.
A CPTM tentou há alguns anos a unificação das duas estações, separadas por cerca de 600 metros entre uma e outra. Essa ideia começou no mesmo período em que a companhia estava reconstruindo estações como Brás e Luz para a integração entre as linhas da CPTM para o Metrô, onde em ambos os casos não havia uma integração física-tarifária entre os sistemas.

Em alguns mapas do transporte metropolitano no início dos anos 2000 chegou a aparecer uma projeção da unificação das estações Lapa e Água Branca, esta última atendida apenas pela Linha 7, embora a Linha 8 passe próxima da estação. Porém, nunca houve um projeto concreto para essa unificação, e a ideia acabou por ser deixada de lado nos anos seguintes.
No caso da estação Água Branca, com a construção da Linha 6 Laranja do Metrô de São Paulo, uma das estações dessa linha será justamente na Água Branca, o que permitirá tanto a reconstrução da atual Água Branca da Linha Rubi, quanto a construção dessa estação para a Linha Diamante (trecho entre Lapa e Barra Funda).
Embora pareça ser uma solução mais fácil, a integração entre ambas as Lapas vai muito além do que construir uma passarela ou passagem subterrânea entre ambas as linhas. Ambas as estações atendem pontos específicos do distrito como falamos anteriormente, ou seja, cada uma atende demandas distintas.
Pontos de interesse ao redor das estações.
Autor: Victor Santos, 2021.
Se a CPTM optasse por construir uma nova estação ao lado de uma delas e desativando a outra, poderia desatender algum ponto entre as duas atuais estações. A Lapa da Linha 8 está integrada com o terminal Lapa e com o corredor exclusivo de ônibus Pirituba – Lapa - Centro, além de estar próxima de pontos de interesse do distrito como o Shopping Lapa, Mercado da Lapa, Poupatempo e o Estação Ciência.
Linhas integradas no terminal Lapa.
Autor: Victor Santos, 2021.
Já a Lapa da Linha 7 está localizada próxima da região comercial e industrial da Lapa, ao Largo da Lapa e a avenida Ermano Machetti (continuação da avenida Marquês de São Vicente), também com um acesso para as proximidades do Mercado da Lapa.
Ou seja, se a CPTM escolhesse uma das Lapa para ser a nova estação integrada entre as linhas, poderia gerar um certo desatendimento de ambos os lados da via férrea, fazendo os passageiros andar mais ou perdendo a integração com outros pontos de interesse.
Outra opção seria a construção de uma passagem subterrânea entre as estações atuais, permitindo a integração sem deslocar as estações dos atuais endereços. Porém, há obstáculos como as atuais passagens subterrâneas entre os dois lados da via férrea, além do Viaduto Comendador Elias Nagib Breim (Viaduto da Lapa).
Linhas que fazem ponto final na região entre
as duas estações.
Autor: Victor Santos, 2021.
Em 2020, a CPTM anunciou a concessão das linhas 8 Diamante e 9 Esmeralda para a iniciativa privada, concessão realizada em 2021 com a concorrência vencida pela Via Mobilidade, já concessionária da Linha 5 Lilás. Entre as propostas está a construção de uma nova estação Lapa para a unificação das duas atuais paradas para os trens metropolitanos.
Linhas que atendem o acesso sul da Estação Lapa-Linha 7.
Autor: Victor Santos, 2021.
O projeto prevê a construção de uma estação entre as duas linhas, não deixando de atender nenhum dos pontos de interesse na região, simplificando as operações de ambas as linhas no local. Não há uma data para a construção dessa nova estação, mas tudo indica que com o início da operação da Via Mobilidade nas duas linhas, o projeto seja retirado do papel.
Linhas que passam pela parada
Estação Ciência do Corredor Lapa - Centro.
Autor: Victor Santos, 2021.
Uma coisa em comum entre as duas estações é o fato de serem estações com poucos itens de acessibilidade (elevadores, rampas, rota tátil, entre outros), o que dificulta a utilização por pessoas com alguma restrição na mobilidade. A Lapa da Linha 7 recebeu recentemente itens como rampas para o acesso a estação e transposição de plataforma, além da comunicação visual mais atualizada. Em contraponto, a estação da Linha 8 está mais atrasada nesse quesito, sem rampas para a transposição entre plataformas, dificultando o acesso de idosos, gestantes, ou pessoas com restrição de mobilidade ao sentido Itapevi da linha.
Linhas que atendem a Estação Lapa-Linha 7 (lado norte).
Autor: Victor Santos, 2021.
Houve outros casos semelhantes no transporte de São Paulo, como os casos das estações Engenheiro Sebastião Gualberto, Carlos de Campos, Vila Matilde e Itaquera da antiga Linha E Laranja (atual 11 Coral).
Todas essas eram estações independentes, mesmo com a linha Leste-Oeste (atual 3 Vermelha) do Metrô passando ao lado da linha de trens urbanos. No ano de 2000, a CPTM desativou todas essas estações com a inauguração do Expresso Leste, agora permitindo que o passageiro faça transferência entre as linhas de trens e de metrô apenas nas estações Brás, Tatuapé e Itaquera.

Por fim, a questão das duas estações Lapa ainda pode durar mais alguns anos, ou até a CPTM definir como será feita a solução dessa questão sem gerar maiores problemas para os atuais usuários. Com a operação da nova concessionária, talvez nos próximos anos essa questão poderá ser enfim solucionada.
Projeção da nova Lapa.
Fonte: Diário do Transporte, 2020.
Texto: Victor Santos.
Fontes:

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Como são denominadas as rodovias?

Você já parou para imaginar como rodovias são nomeadas? Por que algumas são denominadas como BR-101 ou BR-040 e outras são chamadas de SP-101 ou MG-040? Embora pareça confuso, há uma lógica por trás de todas as nomenclaturas das rodovias, estaduais ou federais, e hoje vamos compreender essa lógica.
Rodovia Raposo Tavares (SP-270).
Foto: Victor Santos, 2021.
Sendo o transporte rodoviário sua principal forma de conexão entre as regiões do país, não é por menos que o Brasil possui uma infraestrutura rodoviária com cerca de 210 mil quilômetros de rodovias pavimentadas e 1,3 milhão de rodovias não pavimentadas (DNIT, 2020).
É um pouco estranho o transporte rodoviário ser mais utilizado que o transporte ferroviário e mesmo assim o investimento em rodovias ser muito abaixo da necessidade.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) adotou a atual nomenclatura em 1964, quando o antecessor do DNIT, o DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) passou a denominar as rodovias de maneira mais organizada.
Para as rodovias federais, que fazem ligações interestaduais, sua denominação começa com a sigla BR, seguida de três algarismos que informam a categoria ou posição da rodovia em relação a capital federal. Exemplos: BR-040, BR-116 BR-262, BR-381, BR-401.
Para as rodovias estaduais, que fazem ligações regionais dentro do mesmo estado, possuem a denominação que faz referência ao UF (Unidade Federativa ou da Federação) de cada Estado, seguindo uma lógica diferente para os três algarismos seguintes. Exemplos: SP-330, MG-040, RJ-116, entre outras.

Existem cinco tipos de rodovias e são representadas com o algarismo distintos na lógica, segundo o DNIT:
Rodovias radiais Rodovias que partem da Capital Federal para os extremos do país. O primeiro algarismo é sempre 0, enquanto os dois restantes representam a sequência delas no sentido horário de 05 a 95.
Exemplos: BR-010 (Brasília – Belém), BR-020 (Brasília – Fortaleza), BR-030 (Brasília – Campinho). BR-040 (Brasília – Rio de Janeiro), BR-050 (Brasília – Santos), assim por diante.
Rodovias radiais.
Fonte: DNIT, 2020.
Rodovias longitudinais – Rodovias que atravessam o país na direção Norte-Sul. O primeiro algarismo é representado por 1, e os dois restantes varia de acordo com a posição da rodovia em relação a Brasília. Ou seja, se a rodovia estiver posicionada geograficamente a Leste de Brasília, pode variar de 00 a 50 os dois últimos dígitos, enquanto se a rodovia estiver a Oeste da capital federal, os dígitos podem variar de 50 a 99. Isso também está relacionado ao quanto a rodovia esta afastada da capital federal, se estiver mais distante ou mais próxima de Brasília.
Exemplos: BR-101 (Touros/RN a Rio Grande/RS), BR-116 (Fortaleza/CE a Jaguarão/RS), BR-158 (Altamira/PA a Santana do Livramento/RS), entre outras.
Rodovias longitudinais.
Fonte: DNIT, 2020.
Rodovias transversais Atravessam o país na direção Leste-Oeste. O primeiro algarismo é representado por 2 (dois), enquanto dos dois restantes formam a mesma lógica das rodovias longitudinais. Varia entre 00, mais ao Norte, e 50 na capital federal, e 50 a 99, no extremo sul.
Exemplos: BR-210 (Macapá/AP a fronteira com a Colômbia), BR-251 (Ilhéus/BA a Cuiabá/MT), BR-290 (Osório/RS a Uruguaiana/RS), entre outras.
Rodovias transversais.
Fonte: DNIT, 2020.
Rodovias diagonais – Rodovias que ligam regiões do país no sentido Noroeste-Sudeste ou Nordeste-Sudoeste. O primeiro algarismo é representado por 3 (três), enquanto os dois restantes atendem um critério de acordo com o sentido.
No sentido Nordeste-Sudoeste, se a rodovia estiver no extremo Nordeste do país ou mais próxima de Brasília varia entre 00 e 50 com número pares, enquanto se estiver mais a Sudoeste de Brasília pode variar de 50 a 98.
No caso das rodovias Noroeste-Sudeste, varia de 01 a 51 no extremo Noroeste do país, e de 51 a 99 se estiver no extremo Sudeste. Sempre com números ímpares e variando de acordo com a distância em relação a Brasília.
Exemplos: BR-316 (Belém/PA a Maceió/AL), BR-319 (Manaus/AM a Porto Velho/RO), BR-381 (São Mateus/ES a São Paulo/SP), BR-392 (Rio Grande/RS a fronteira com a Argentina), entre outras.
Rodovias diagonais.
Fonte: DNIT, 2020.
Rodovias de ligação – Categoria para as demais rodovias do país, como as que fazem ligação entre as rodovias, ligam rodovias a regiões importantes como cidades ou portos, ou mesmo nas fronteiras internacionais do país. Não possuem um critério para a direção como as outras, e seu primeiro algarismo é o 4 (quatro), enquanto os dois últimos variam entre 00 e 50 se estiver ao Norte do paralelo de Brasília, e de 50 a 99 se estiver ao Sul em relação a capital federal.
Exemplos: BR-401 (Boa Vista/RR a fronteira com a Guiana), BR-415 (Ilhéus/BA a Vitória da Conquista/BA), BR-452 (Rio Verde/GO a Araxá/MG), BR-488 (do entroncamento com a BR-116 ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida/SP), entre outras. Há duas rodovias com a denominação BR-6xx, a BR-600 e BR-610 que entram nessa categoria.

No caso de sobreposição de rodovias, quando duas ou mais rodovias são representadas em um mesmo trecho de circulação, adota-se a nomenclatura da rodovia mais importante ou de maior fluxo.

Placa instalada as margens da BR-101.
Indicações marcam o sentido e a quilometragem no trecho.
Foto: Muriel Albonico.
Existe também a questão da quilometragem e a direção de cada rodovia, representada por placas indicativa (azul) nas rodovias. Indiferente da categoria da rodovia, a quilometragem não é cumulativa, se iniciando e zerando dentro do mesmo Estado. Para cada categoria, há uma lógica para a contagem da quilometragem:
Rodovias radiais – O ponto inicial dessas rodovias é o Anel Rodoviário de Brasília e segue no sentido de cada extremidade das rodovias. A quilometragem sempre é zerada ao sair de cada Estado, se iniciando sempre com a orientação a partir de Brasília.

Rodovias longitudinais – A orientação da quilometragem é no sentido Norte-Sul, com duas exceções que é o caso das rodovias BR-163 e BR-174, cuja orientação é no sentido Sul-Norte.

Rodovia transversais – Possuem a orientação Leste-Oeste para a quilometragem.

Rodovias diagonais – Essas rodovias possuem seu ponto mais ao Norte como início e ponto mais ao Sul como final, com exceções das rodovias BR-307, BR-364 e BR-392.

Rodovias de ligação – Normalmente segue do ponto mais ao Norte ao ponto mais ao Sul, ou em casos de rodovias de ligação entre duas rodovias federais, o ponto inicial é na rodovia de maior importância.

E no caso das rodovias estaduais?
Bom, cada autarquia ou empresa que administra as rodovias estaduais em seu respectivo Estado adota um parâmetro para a nomenclatura de cada rodovia. No caso do Estado de São Paulo, o DER-SP (Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo) categoriza as rodovias com uma lógica semelhante ao do DNIT.

Rodovias radiais – Fazem a ligação entre a capital São Paulo e outras regiões do Estado. As indicações para estas rodovias correspondem a um ângulo a partir de uma linha Norte que passa pela capital e varia de 02 a 360 no sentido da esquerda para a direita (sentido horário) e sempre com número pares. Ou seja, os ângulos formados por essa linha imaginária são as indicações de cada rodovia. Por exemplo, a rodovia SP-330 (Rodovia Anhanguera) está no ângulo 330 a partir da linha Norte desde a capital. A rodovia SP-270 (Rodovia Raposo Tavares) está no ângulo 270 a partir dessa referência, e assim por diante.
Conceito para rodovias radiais.
Fonte: DER-SP, 2005.
Rodovias transversais – Ligam regiões do Estado sem passar pela capital e sua denominação corresponde a distância média até a capital, sempre utilizando o número ímpar de maneira sequencial. Para codificar a rodovia é utilizada uma linha em um ângulo de 90 graus entre essa rodovia e a capital paulista, traçando-se uma distância média entre elas. Por exemplo, a rodovia SP-055 (entre a divisa SP-RJ até a cidade de Miracatu) está a cerca de 55 quilômetros de São Paulo. A rodovia SP-021 (Rodoanel Mário Covas) está a cerca de 21 quilômetros do marco-zero da capital paulista, enquanto a SP-015 representa as Marginais Pinheiros e Tietê. Sim, as marginais são consideradas rodovias por fazer ligações importantes entre diversas rodovias que passam pela capital de São Paulo.
Conceito para rodovias transversais.
Fonte: DER-SP, 2005.
Marginais – São vias que estão construídas as margens de rodovias, utilizando o mesmo código que ela, porém adicionando as letras E (esquerda) ou D (direita) na codificação. Para definir isso, é utilizado como base o ponto inicial da quilometragem da rodovia. Exemplo: Rodovia Anhanguera (SP-330) possui a marginal Direita (SP-330 D) sentido interior do Estado e a marginal Esquerda (SP-330 E) sentido capital.
Conceito para marginais.
Fonte: DER-SP, 2005.
Acessos – São utilizados para as vias que permitem o acesso de uma rodovia para uma cidade, e possui dois conjuntos numerais separados por barra, sendo o primeiro o indicativo da do quilômetro da rodovia de onde parte o acesso, e o segundo o código da rodovia de sua origem. Ambos são antecedidos pela sigla SPA. Exemplo: SPA 008/101, quilômetro 8 da SP-101 (acesso a Hortolândia).
Conceito para acessos.
Fonte: DER-SP, 2005.
Interligação – Rodovias que fazem a ligação exclusiva entre duas rodovias, e sua codificação são formados por dois conjuntos de algarismos separados por barra, onde o primeiro conjunto representa o quilômetro de origem da rodovia de origem, e o segundo a codificação da rodovia também de origem. Esse conjunto procede depois do código SPI. Exemplo: SPI-084/066, interligação entre as rodovias SP-066 a SP-070.
Conceito para interligações.
Fonte: DER-SP, 2005.
Dispositivos – São complementos que interligam rodovias entre si, estão localizadas nos entroncamentos ou acessos destas rodovias. A codificação utiliza também dois conjuntos numerais, sendo o primeiro a quilometragem onde está localizado este dispositivo na rodovia, e o segundo a codificação da rodovia de origem, procedidos também do código SPD. Exemplo: SPD-102/066, dispositivo no quilômetro 102 da SP-066, entroncamento com a rodovia SP-099.
Por fim, cada Estado adota um parâmetro diferente para a sua estrutura rodoviária, e é necessário conferir cada autarquia e empresa responsável pelas rodovias de cada Estado.

E em casos de rodovias sobrepostas entre Estaduais e Federais?
Há muitos casos em que as rodovias federais quando estão dentro de alguns Estados acabam por receber o código diferente dos que possuem, como por exemplo a BR-101, onde o trecho desde a divisa entre o Rio de Janeiro e São Paulo até a cidade de Miracatu, no Estado de São Paulo, entroncamento com a BR-116. Esse trecho é denominado como SP-055, mesmo sendo parte da BR-101, chamada popularmente de Rio-Santos nesse trecho. Nesse caso também há os nomes oficiais. 
No trecho entre Ubatuba e Santos, é chamado de Rodovia Doutor Manuel Hipólito Rego (Rio-Santos), o trecho entre Piaçaguera e Guarujá é chamado de Rodovia Cônego Domenico Rangoni. Já o trecho entre Piaçaguera e Miracatu chamado de Rodovia Padre Manuel da Nóbrega.

Outros nomes populares de rodovias:
BR-116: Rio-Bahia (trecho dentro do território de Minas Gerais), Presidente Dutra (entre São Paulo e o Rio de Janeiro), Régis Bittencourt (entre Curitiba e São Paulo), Via Serrana (entre Curitiba e Jaguarão), Rio-Teresópolis (entre o Rio de Janeiro e Teresópolis), e Santos Dumont (entre Fortaleza e o entroncamento entre esta e a BR-040 no Estado do Rio de Janeiro).
BR-040: Rodovia Presidente Juscelino Kubitschek (entre Brasília e Petrópolis) e Rodovia Washington Luís (entre Petrópolis e o Rio de Janeiro), também é conhecida como Rio-Brasília.
BR-230: Conhecida popularmente como Transamazônica.
BR-381: Fernão Dias (entre São Paulo e Belo Horizonte), e ES-381 no trecho dentro do Espírito Santo.
Rodovia BR-040.
Fonte: DNIT.
Em casos de rodovias concedidas a iniciativa privada
Algumas rodovias quando foram concedidas a iniciativa privada acabam recebendo um nome adicional, como o caso da BR-116 entre São Paulo e o Rio de Janeiro é de administração da CCR Nova Dutra, enquanto o trecho entre São Paulo e Curitiba é administrado pela Autopista Régis Bittencourt.
Porém, ainda são rodovias que pertencem ao Governo Federal, apenas cedidas a iniciativa privada para ampliações, manutenções e gerenciamento.

Texto: Victor Santos
Fontes: DNIT, DER-SP. (Clique nos nomes em negrito para acessar os links).